Leandro não ficou indiferente às crianças da favela ao lado da USP

Paulo Vieira

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SÁBADO PASSADO, 8 de setembro, fiz pela manhã meu primeiro cascalho mais longo desde a mara Uphill, disputada pelo editor deste pasquim exatamente no sábado anterior, 1º de setembro.

Boa parte desse 20kazinho foi no venerável campus da USP, excepcionalmente vazio por conta do feriado de véspera.

Não poderia haver situação mais propícia para o cascalho, e, ao deixar o Hospital Universitário e passar perto da entrada da São Remo, fiquei pensando em como agregar os jovens da favela nas múltiplas atividades esportivas do Cepê, o vizinho clube da USP.

Novidade nenhuma.

Cheguei a mentalizar um plano de corridas que envolvesse um patrocinador – imaginei a Tom Tom –, que poderia ofertar seus equipamentos de acordo com um plano de frequência/metas, sei lá.

Correríamos dentro do Cepê sob a batuta dos educadores físicos da instituição.

Lembrei também da Neide e da ONG Vida Corrida, que faz isso com apoio da Nike e outros mecenas no Capão Redondo.

Gente que faz, diferentemente deste que vos tecla, que fica só pensando.

E em mais um minuto, como que por mágica, vi materializarem-se, diante de mim, meninos e meninas, uma gangue enorme, esquiando no asfalto.

Logo imaginei, pelas idades, fenótipos e pelo inusitado de meninos manejando aqueles estranhos equipamentos, tratar-se de uma atividade esportiva desenvolvida com a rapaziada da comunidade.

Não deu outra.

Os garotos são participantes do projeto Ski na Rua, criado pelo ex-atleta olímpico e treinador Leandro Ribela, que não ficou indiferente aos meninos da favela certo dia que os viu novamente guardar carros e entregar água para os esportistas de fim de semana do campus.

A instituição mantém uma pequenina sede na São Remo, e na entrevista que você vê abaixo, concedida a um dos canais da Câmara Municipal de São Paulo, Leandro apresenta sua ONG, que começou com 4 garotos em 2012 e hoje envolve 100 alunos de 6 a 21 anos.

Este ano, na Olimpíada de Inverno da Coreia do Sul, Victor Santos, que lavava carros na USP e que conheceu o rollerski por conta da ONG, representou o Brasil na modalidade cross country (na neve).

O CORRE DE NEIDE SANTOS E SUA ONG VIDA CORRIDA NO CAPÃO

OS PLANOS DA TOM TOM PARA O BRASIL 

ESPECIAL UPHILL – O VERDADEIRO NINJA

ESPECIAL UPHILL – UPS AND DOWNS

UMA CORRIDA LÍRICA NA USP

Outro menino da São Remo, o Rhaick Bonfim, foi campeão sul-americano sub-14 na neve sem jamais ter nela pisado antes. Detalhe: ganhou de meninos do Chile e da Argentina, totalmente familiarizados com a friaca e com a superfície.

Uma passagem muito legal dessa entrevista é quando Leandro explica como tudo começou: “Antes era um menino mais de cabeça baixa que dizia ‘posso guardar seu carro?’, de repente [eles] começaram a ficar orgulhosos, eram mais um ator [na USP].

Antes pediam para guardar seu carro, agora é você perguntando pra ele ‘pra que serve isso, você já foi pra neve?’.”

Se a invisibilidade é uma das grandes reclamações dos excluídos, Leandro descobriu uma maneira de revertê-la com tintas vivas, lindas e fortes.

Foto da home: Leandro Ribela/Facebook

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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