Especial Uphill – Ups and downs

Paulo Vieira

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HÁ BOAS RAZÕES para viajar a Treviso, no sul de Santa Catarina, para participar da maratona Uphill, prova bancada pela sucursal brasileira da Mizuno e realizada há seis anos pela empresa X3M (da XTerra).

Com inscrição oferecida pela Mizuno, estive nas duas últimas edições, a mais recente sábado passado.

Toda a comunicação da Uphill procura convencer o interlocutor da dificuldade de completá-la. A razão óbvia é a altimetria da serra do Rio do Rastro, mais de 1000 metros de elevação nos 7K finais da prova.

A piramba até faz o povo esquecer que os dois terços iniciais da corrida também são feitos em topografia acidentada, o que acaba por exigir bastante do incauto.

Mas é mesmo a pirambeira final, que é tratada como uma espécie de nêmesis dos corredores que a “desafiam”, a atração-mor da prova, razão dos competidores serem chamados pela organização de “ninjas”.

EDU OLIVEIRA, DA MIZUNO, EXPLICA A UPHILL

NINGUÉM VIRA NINJA POR CONCLUIR A UPHILL

DESCONSTRUINDO A MONTANHA

UPHILL 2018: ENTREVISTAS SUADAS

UPHILL 2017: ENTREVISTAS SUADAS

“Tartarugas ninjas” talvez fosse uma denominação mais precisa, pois só os profissionais ou amadores muito faca-nos-dentes não caminham por boa parte da serra.

Mas todo mundo gosta de cair nessa pregação para convertidos. Primeiro pela restrição técnica de vagas, que impele à realização de um sorteio, com chance de 1 para 7.

Estar lá, mesmo que terminando a prova acima das 6 horas – tempo máximo para fazer jus a uma medalha –, já é uma vantagem competitiva em relação àqueles que nunca foram.

Por isso não é difícil encontrar gente como o Paulo Fonseca, de São Paulo, o cara da Suada abaixo, que me disse que foi “chamado” para participar.

Quando eu perguntei quem o chamou, ele disse: “a Serra”.

Sábado passado, na reta final, quando a serra havia sido transposta e já era possível voltar a correr por 1K no plano, um sujeito falava alto para si mesmo e para quem estivesse ao lado: “Eu era gordinho, já tive 110 quilos e vou completar a maratona mais difícil do Brasil.”

Rolou um “glória a Deus”, também.

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Mesmo sem esse imaginário ninja, é bem possível que o evento tivesse se firmado, como se firmou, no calendário de principais provas de corrida do Brasil.

Ele é produzido com muita competência, e a estrutura de apoio para os participantes é elogiável. Senão, vejamos:

– A hidratação é farta, ainda que a água não estivesse gelada nos postos de 5K e 10K; o ótimo mix de grãos servidos num copo plástico no 21K é raro de se ver em provas de corrida.

– Há apoio médico móvel e fixo. E é importante que assim seja, pois hipotermia não é uma ocorrência inusual aqui.

– Pós-prova como poucos. Há oferta de massagem, frutas, caldo de feijão, chocolate quente, guarda-volumes móvel.

– Kit com camiseta de finisher.

– Transporte de retorno, ainda que pago.

O que dá para melhorar:

– Traslado de retorno. Embora ele só comece às 13h, quando o tempo de prova fecha, há que se fazer alguma coisa com a massa de corredores que a terminam entre 4 e 5 horas.

– Impossibilidade de retorno ao galpão pós–prova uma vez tendo saído dele. No frio enregelante de Bom Jardim da Serra, ficar desabrigado é um problema bastante sério. Talvez seja o caso de flexibilizar essa regra, embora o galpão não comporte nem de longe uma muvuca de 900 pessoas ali na mesma hora.

– Chuveiros. Seria pedir demais uma estrutura de vestiários? Talvez oferecido como serviço “premium”?

– Colocar um “m” na terrível frase “Aqui se fabrica ninjas” usada em banners, medalhas, painéis, o diabo. Mas pelas pedras atiradas no Instagram oficial pelo organizador da prova, o Bernardo Fonseca, da X3M, a correção da concordância não sai tão cedo.

Mando um salve para os leitores Bruno Espinoza e Angelo Caexeta por se preocuparem com a questão.

Foto da home: Cristiano Andujar/Divulgação

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Avatar
    José Carlos Rodrigues Batista

    Concordo com relação ao Galpão pòs prova. Da mesma forma deveria ter uma estrutura de apoio aos que nos apoiam durante a preparação e seguem conosco, que são os familiares e amigos.

    Responder

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