A sinceridade é a prova dos nove

Paulo Vieira

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A ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE. Se essa frase tão oswaldiana fosse usada como teste para medir a sinceridade de quem a profere, Vicente Vilardaga, o Viça, passaria com louvor. O mesmo talvez não pudesse ser dito de chefes das publicações em que trabalhou.

Até mesmo um tapinha nas costas protocolar lhe foi negado por caciques e aspones quando a notícia de que escrevia A Clínica, o livro que hoje lança em São Paulo, veio a público.

Mas estou a errar grosseiramente o alvo. Vicente é Diógenes onde se quer treva, Zé Celso onde se quer o pai diligente da Teoria do Medalhão. Mesmo neste humilde pasquim, escrever um perfil sobre ele contemplando a escuridão do senso comum, a escuridão dos ambientes gris onde vivemos décadas, é não fazer qualquer justiça ao personagem. 

Tentemos novamente, pois, ajustar-mo-nos a ele. Tarefa mais difícil do que acertar na mesóclise. Como reagir à torrente de palavras que sai de sua boca em tom de voz acima do socialmente aceitável? Um fluxo que não contempla frivolidades em momento nenhum, que não dá descanso ao interlocutor, puxando-o, involuntariamente, para cima.

Por isso, com quer que esteja falando, Viça está sempre entre os seus: trata a todos em alto nível, pois dificilmente deixará de ouvir alguém a priori.

Tendo a achar, muito provavelmente fazendo uma transferência indevida, que, aos 50 (“os novos 30″, ele propaga), Viça esteja cansado das redações. Não porque ali lhe seja negado até mesmo um reles tapinha nas costas. É que quando se é caudaloso com a vida, é-se também com o trabalho.

Mesmo precisando cada vez mais do cacau – a prole já conta quatro –, simplesmente não vale a pena perder tempo em lugar de baixa produção energética. A alegria é a prova dos nove.

Sobre o livro que lança hoje: apesar de ter escolhido um tema pisado e repisado pela imprensa, não precisou se esforçar muito para perceber que havia toda uma história a ser contada. Uma “narrativa”, como se diz.

Sim, muito de papel e éter se gastou para falar e exibir Abdelmassih, mas do óbvio se ocupam só os mais tinhosos. Em A Clínica, a golpes de dezenas de entrevistas com circunstantes ignorados, Viça mostra como seu personagem já vinha se construindo sem surpresas lá no início.

O médico já era em sua puberdade profissional o monstro de que a coleção gigantesca de vítimas conhecidas só recentemente serve de prova.

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Curioso é que o “projeto” deste seu segundo livro – o primeiro, A Sangue Frio, é sobre o jornalista e assassino Pimenta Neves –, surgiu como ideia comezinha de pauta: os 30 anos do bebê de proveta. Uma história que não passava, aliás, pelo biografado.

Mas se é verdade, como dizem os ficcionistas, que a história persegue o autor, Abdelmassih perseguiu Viça. 

Engano-me muito mais do que deveria, mas penso que não se deve atribuir aos sucessos comercial e de networking de Viça a longa fila da sessão de autógrafos desta noite na Livraria da Vila (de onde, aliás, tc agora, aproveitando o bom wi-fi).

Mais justo é acreditar que a incontinência verbal do autor e a vontade de trocar ideias com o interlocutor, todo interlocutor, façam que o evento transcorra em ritmo de corrida – no seu ritmo de corrida, que fique bem claro.

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Maior erro da história do recrutamento de pessoal do século 21 no Brasil, Fabio Barbosa, ex-presidente da Editora Arvorezinha, tentou fazer difundir entre seus comandados uma frase que tratava como lema: é preciso se tornar protagonista da própria história. 

O bordão é forte e tende a fazer muito sentido em palestras motivacionais e em outros ambientes medíocres, mas na Arvorezinha, estranhamente, não funcionou. É bem verdade que em vez de PDV nos foram oferecidos passaralhos em série. 

De qualquer forma, se a frase tivesse chegado aos ouvidos do Vicente, ele por certo agradeceria sinceramente o empenho do interlocutor, a quem trataria com o mesmo respeito que devota a todo mundo com quem conversa. 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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