A escapada do sedentário

Paulo Vieira

Apesar de ter repercutido aqui na sexta–feira a pesquisa dinamarquesa que equipara o corredor casca grossa – casca média, talvez – ao sedentário em termos de risco de vida, não me deixei impressionar com a “posologia” recomendada.

Minha dieta no fim de semana ultrapassou bastante o limite propugnado pelos doutos escandinavos para a corrida saudável. Já na sexta, depois de quatro dias de abstinência, ganhei o Alto de Pinheiros e depois um Parque Villa-Lobos em que, contando eu, havia não mais de quatro brasileiros.

Os 12 ou 13K da hora da Ave Maria foram polimento para o que estava por vir na manhã de sábado. Junto com o Zellão e outros parceiros da assessoria Pacefit, fomos deixados às 8h15 da manhã como pintos no lixo na Estrada dos Romeiros, no trecho que liga Pirapora do Bom Jesus a Cabreúva. A estrada-parque acompanha o Rio Tietê, ali ainda poluído, mesmo com toda a grana despejada pelos japoneses, mas ao menos com direito a mata ciliar – e, de quando em quando na estrada, um belvedere para contemplarmos o rio.

É sempre fácil pensar em entradas e bandeiras, em ciclo da escravização do índio, Borba Gato e o ouro do Brasil Central quando se vê um pedaço do Rio Verdadeiro, como diziam os índios, que, malgrado o cheiro e o assoreamento, deve lembrar o que foi há quatro séculos. Só água e mata para contar a história.

O rio dos bandeirantes/Foto: Bikehype
O rio dos bandeirantes/Foto: Bikehype

Mas nenhum deles, Anhanguera, Fernão Dias, Raposo Tavares ou Borba Gato, entrou no meu pensamento quando eu decidi esticar os 14K a 20K estipulados para o treino. Depois de pelejar para conseguir água potável na primeira hora (o Zellão só foi aparecer com sua charanga no 11,3K), decidi empurrar ainda mais dois quilômetros a perna de “ida”.

“Vamos passar aquela ponte, negão”, “melhor ver o que tem depois daquela clareira”, dizia a mim mesmo, solitário que estava desde a saída por ter imprimido um pace mais alto do que o dos colegas.

Falar sozinho certamente dá razão aos dinamarqueses, mas não resta muito mesmo a fazer quando você passa mais de duas horas apenas trocando ideia consigo mesmo.

Com ajuda do Garmin, que trabalhou bem sábado, fiz a virada no 13,5K. Agora era voltar pela mesma estrada, com o Tietê desta vez sempre na mão direita. Apesar de ter acabado de percorrer aquele trecho, tive a nítida impressão que o Zellão decidiu erguer uma subida de 2K lá pro final do treino, piramba que por alguma razão não havia antes. Com as empreiteiras brasileiras, sempre dispostas a fazer uma obrinha, tudo é possível, e o negão é tão arteiro que era bem capaz de ter colocado os engenheiros que sobraram da Lava Jato no bolso.

Descer todo santo ajuda, diz o ditado, embora o corredor não se beneficie da energia potencial da descida. Mas realmente não deu para perceber no começo da brincadeira que viria encrenca na volta.

O pace, que andava ritmado na casa do 5’10”, despencou pra 7’ e foi preciso trotar na diagonal por intermináveis dois quilômetros. 

E no meio da subida, quem estava? Zellão, claro, mas as notícias que nosso bei tinha para dar não eram das melhores. A água havia acabado e o isotônico estava sem gelo.

Mas se não tem tu, vai tu mesmo.

A rapaziada que suou no sabadão. Adivinha quem é o Zellão?/Foto: Pacefit
A rapaziada que suou no sabadão. Adivinha quem é o Zellão?/Foto: Pacefit

Ainda havia mais uns bons 800 metros de subida antes que se pudesse finalmente avistar a cidade lá embaixo.

Deu saudade dos 4,5K de subida do Pico do Jaraguá, que ao menos agracia seus adeptos com uma sombrinha boa na sua primeira metade.

O tempo final dos 27K foi 2:24:31, pace de 5’21”, o que me assegurou, numa tacada só, um lugar magnífico no sofá dos sedentários segundo a Escola Dinamarquesa e umas pontadas na coxa esquerda, a mesma que acertou uma barra de ferro num fartlek mal calculado ao lado do Teatro Municipal, cortesia de um 20K lindão do domingo retrasado.

Mas o melhor mesmo foi ter um pretexto para dar uma escapada de Sampa.

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Com tudo isso, pensei que só trotaria nos 6K da Netshoes Fun Race, uma prova muito alto astral, com início e final dentro da pista de atletismo do Complexo do Ginásio do Ibirapuera, que eu faria no dia seguinte, ou seja, ontem.

Claro que não foi bem assim, mas deixa eu guardar alguma coisa pra contar amanhã.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

1 Comentário

  1. Arthuro Paganini

    Interessante. Muito legal a sua análise ao estudo publicado. Foi uma resposta à altura. Por isso continuo correndo ! E como eu disse a algumas pessoas, esses dinamarqueses não sabem de nada.

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