Meu primeiro dia no parque

Paulo Vieira

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FAZIA CERCA DE 17 GRAUS e o céu estava cinza, condições perfeitas para o cascalho, mas totalmente adversas para passar um dia flanando no parque.

Ao menos para um brasileiro médio, para quem a temperatura de 15 graus já implica a possibilidade de desmaios e alucinações com a aurora boreal.

Só que na manhã de ontem, quando isso se deu, era apenas o quarto dia da reabertura dos parques em São Paulo após cerca de quatro meses completamente fechados.

Imaginava engrossar uma massa disforme, uma enorme demanda reprimida, horda de brasileiros lançando-se às áreas verdes como visigodos diante da queda iminente de Roma.

Mas não rolou.

Villa-Lobos/Foto: Jefferson Souza/Flickr

Os parques da maior cidade do Brasil abriram marromeno. Não funcionam aos fins de semana, seguem com horários ingratos nos dias úteis (10 da manhã às 4 da tarde, exceto o Ibirapuera e o parque do Carmo, que abrem às 6), têm entrada controlada e limitada a menos de metade de sua capacidade e mantêm interditados parquinhos e quadras de esportes.

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Ontem, o parque escolhido foi o meu íntimo Villa-Lobos, onde não colocava os pés desde março. Logo de cara, na entrada principal, me vi numa pequena fila de 4 ou 5 pessoas à espera do controle de temperatura.

Na minha vez, a pistola deu tilt. O guarda até apontou o dispositivo para a própria cabeça, acreditando que eu, moderadamente suado já com 15 minutos de corrida, poderia estar de alguma forma imune ao aparelho. Não era o caso, e, ao religá-lo, fez se a luz.

Eu não tinha febre, e assim fui admitido no Vibra-Bollos.

Logo à entrada, éramos convidados a passar álcool nas mãos a partir de um recipiente acionado por pedal.

Fiz no Villa duas voltas pelo anel externo, 8K no total. De máscara, como pede a etiqueta e que todos ali – corredores ou não – usavam, cruzei com apenas um corredor na trilha externa de corrida do parque.

Trabalhadores aparavam a grama da trilha, que em certos pontos estava cheia de folhas secas e fofa como um campo de futebol em que a bola não rola. Uma mulher, num triciclo com alto-falante, recitava os novos parâmetros de utilização do espaço.

Na trilha de asfalto éramos talvez não mais do que 15 corredores.

Estar de volta ao Villa-Lobos não teve o condão de entrar para o panteão de instantes memoráveis da minha vida, como talvez tenha acontecido em meu retorno à USP, em 16 de junho, mas é reconfortante pensar que os momentos mais duros da pandemia podem estar ficando para trás.

Na falta de uma mesa de madeira neste escritório em que trabalho, toco 15 vezes na de vidro. E leio, com temor, que Barcelona ameaça retomar seu lockdown x-rated diante do aumento de número de casos nesta semana.

Sai pra lá.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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