Correndo na Pampulha (antes dos alemães)

Paulo Vieira

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Eu não sei quão longe era a Pampulha da “cidade” de Belo Horizonte quando a capital mineira ganhou sua lagoa em 1943, na administração do prefeito e futuro presidente JK. Devia ser logo ali (longe, em mineirês), pois hoje continua longe demais da conta de tudo – por tudo entenda-se a Afonso Pena, o bairro de Lourdes, os guajajaras e os aimorés da música do Milton, o Bolão.

E já que é para o lado de lá que os olhos de 200 milhões entre 200 milhões de brasileiros estarão voltados em instantes, decidi publicar este muito interessante texto do leitor Gustavo Silva de Mattos, morador de BH e corredor emérito da orla da Pampulha. Que infelizmente, como aprendo aqui, já viveu dias bem melhores quando não estava tão assoreada e poluída.

E já viveu dias piores nos anos 1990 quando estava ainda mais assoreada. Bora.

A  lagoa modernista/Foto: Carlos Avelin - Portal da Prefeitura de BH
A lagoa modernista/Foto: Carlos Avelin – Portal da Prefeitura de BH

Estive na Lagoa da Pampulha. Se você for um bom observador do ambiente, pode perceber que há uma imensa diferença entre a corrida e a “experiência” de correr. A corrida é um exercício físico, feito por gente solitária, ou que compartilha a solidão e o ritmo da corrida com mais alguém, os dois em religioso silêncio.

São pessoas magras, com a pele curtida de sol e com menos gordura no corpo que um pote de manteiga. Ou então estão acima do peso, com certo constrangimento e desejo de esconder os excessos corporais que não desejam com pesados casacos. Inspiram esperança e transpiram suor.

A “experiência” de correr é um exercício mental. É o não correr meio que corrido. É como aquele botão, ou aquela moeda de um centavo que você solta na cestinha de doação da igreja, meio que pra não ir pro inferno, mas meio na dúvida.

Ela, a experiência, consiste em comparar roupas de esporte, em comprar medidores para o batimento cardíaco – talvez pra
lembrar que ali ainda bate um coração –, em usar um suporte braçal para o celular, para não esquecer o cosmopolitismo do seu cativeiro. Consiste em levar sua paquera, seu cachorro, seu carro de som, seu churrasco e, quem sabe, correr. Sem dúvida é um ótimo exercício, ainda que careça do esforço físico.

Mas não importa qual a sua modalidade; não importa se você corre até o Marco Zero, ou até a Igreja comunista do Niemeyer no quilômetro 2,9, ou até o Mineirinho no quilômetro 3,8, ou até a Casa de Baile, no quilômetro 5,2, ou até a padroeira pagã da Lagoa, a Iemanjá, no quilômetro 5,7.

Você nunca irá tirar tanto proveito da Lagoa da Pampulha quanto uma capivara.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Avatar
    Iracema Pamplona Genecco

    Beleza de relato, Paulo. Adorei.

    Responder

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