Começar a correr me trouxe alguns benefícios, como não perder o ônibus quando ele está parando no ponto e eu do outro lado da avenida. Também melhorou a minha disposição, deixou as cachorras calmas e me fez amar mais o parque ao lado de casa. Porém, ontem, correr salvou a minha pele contra balas de borracha e bombas de efeito (i)moral e gás lacrimogêneo.
Apesar de estar me preparando para encarar 10K, foram as corridas de tiro curto que ocuparam a minha noite, nas calçadas planas da Avenida Paulista e de ruas paralelas e em em ladeiras, como as da Augusta, Haddock Lobo e Frei Caneca, sempre no sentido centro. A roupa – calça jeans, camiseta e casaco -, não era a mais adequada para momentos de tanta adrenalina e exercícios tão exaustivos, porém, o tênis era o mais confortável possível e me ajudou a encarar os trechos de alta tensão.
Felizmente, eu não estava trabalhando e não sofri o ataque covarde da Tropa de Choque contra a imprensa, que deixou muitos feridos, como um fotógrafo da Futura Press e a jornalista da Folha de S. Paulo. Mas eu fui com meu marido para acompanhar e tentar entender melhor que movimento é esse que toma a cidade e o país. E, mesmo sem gritar palavras de ordem, portar o tão perigoso vinagre ou estar com cartazes e bandeiras, fui posta pra correr, literalmente, pela Polícia Militar, Tropa de Choque e Cavalaria.
Deveria ter gravado o barulho das bombas, dos policiais batendo em seus escudos, das sirenes, do trotar dos cavalos, dos manifestantes pedindo “sem violência” e depois saindo em disparada para tentar fugir da brutalidade da PM. Sem dúvida, seria muito mais eficiente do que o aplicativo Zombies Run na hora do treino, quem sabe eu até me preparasse melhor para corridas de curta distância?
O fato é que segunda tem mais manifestação e, provavelmente, motivos para correr e caminhar junto com quem, como eu, não quer ouvir da polícia ou do governo, onde, como e quando deve ocupar as ruas da cidade. E muito menos aceitar que a corrida, sempre tão prazerosa, seja “incentivada” na base da violência contra a população.
O texto de hoje era sobre disciplina, mas, após tudo o que eu vi e vivi ontem a noite, achei melhor publicar algo sobre liberdade e cidadania. Amanhã voltaremos com nossa programação.
Foto de abertura de Pedro Chavedar p/ Brasil de Fato
Por isso, falo aos meus alunos, que eles precisam estar preparados para o dia-a-dia. Ser atletas do cotidiano e quando precisarem usar a sua aptidão física, vão usar com tranquilidade. Brincadeiras à parte, o que é isso. Brutalidade com pessoas que estão trabalhando, não dá mais. Abraços e Sucesso.