Dagma e Delma: as irmãs maratonistas

Paulo Vieira

Tag: , , , , , , , ,

DAGMA CAIXETA, jornalista que corre radicada em Brasília cuja saga de sua primeira maratona foi contada hacie rato neste pasquim, voltou a brincar de concluir uma prova de 42K.

Foi em Floripa, domingo passado, mesmo cenário da estreia na distância da Fabiana Gomes, a Mãe que Corre.

A prova teve um componente especialíssimo. Sua irmã Delma, que havia combinado correr aquela maratona do Rio de 2014 com a Dagma, e depois refugou, decidiu cumprir a promessa agora em 2019 – e também em Florianópolis.

DAGMA CAIXETA: “EU CONSEGUI”

DAGMA CAIXETA ENCARA A MONTANHA

A PRIMEIRA MARATONA DA MÃE QUE CORRE

Mas a história é um pouco mais rocambolesca do que os parágrafos anteriores dão a entender. Pegue o fio para não se perder.

Evoé.

*****************************************

CORRER UMA MARATONA JÁ FOI ALGO impensável pra mim. Duas, mais impensável ainda!

Concluir um 42K no Rio em 2014 já havia feito de mim oficialmente uma maratonista, mas domingo passado, quando faltava pouco mais de um mês para eu completar cinco anos da primeira vez que encarei a “rainha das provas”, corri minha segunda mara, desta vez, em Florianópolis.

Engana-se quem pensa que uma maratona começa na largada. Esta prova, para mim, principiou em janeiro, logo depois de voltar da minha primeira São Silvestre.

Foi aí  que dei início aos meus treinos, ainda sem saber que maratona faria – sequer sabia, na verdade, se faria uma maratona.

UM FLASHBACK

Aqui um retrospecto se faz necessário: corri aquela maratona do Rio para pagar uma promessa, feita para mim e para a minha irmã Delma, as duas com problemas sérios de saúde.

Problemas vencidos, fui lá e cumpri a promessa em 2014. Mas a Delma naquele ano não pode correr. Fui sozinha, e desde então a mana passou a falar que tínhamos de correr a “nossa maratona” juntas, pois promessa é dívida.

Para ela, isso seria uma novidade. O que não era novidade era correr uma maratona: ela já tinha concluído cinco dessas provas.

Pois bem, no início de 2019 ela começou a pressionar, e se inscreveu para a mara do Rio.

Eu já fui logo avisando que ao Rio eu não iria de novo, para não repetir 42K no mesmo lugar.

Dessa forma, me vi livre da “obrigação” de correr uma maratona em 2019.

A REVIRAVOLTA

Mas… sempre tem um “mas”… meu treinador, não por acaso o mesmo dela, sugeriu que eu fosse a Floripa para, sim, correr uma maratona. Por coincidência, a prova ocorre [nota do editor: ocorre, pegou?] na mesmo data da do Rio [nota do editor II: espertos esses organizadores, não?]

Delma mantinha-se firme na ideia de correr no Rio, mas, para minha surpresa, mudou de ideia e pediu o cancelamento da inscrição, e, agora para a surpresa das duas, sua solicitação foi aceita.

Melhor, recebeu estorno do que havia pagado [nota do editor III: parabéns sinceros à Spiridon, que monta a mara do Rio].

E então decidiu ir a Florianópolis, e foi aí que caí na cilada: me obriguei a correr com ela.

Mas calma que vem mais história. Inscrições feitas, vieram os treinos, todos feitos dentro das minhas possibilidades de tempo e saúde física e mental. Foram seis meses intensos, com algumas perdas no meio do caminho, inclusive a de um grande amigo, o que me abalou sobremaneira.

No total, rodei nos treinos mais de 700K. Pode parecer pouco, mas nestes seis meses corri bem mais do que em 2018 inteiro.

FLORIPA, ENFIM

No feriado de Corpus Christi seguimos eu e minha família para Florianópolis. Se no Rio, na primeira maratona, só havia o Norberto para me acompanhar, agora tínhamos nossos filhos, que chegaram exatamente no fim daquele 2014, ano que virei maratonista e mãe.

A Delma desembarcou em Florianópolis um pouco mais tarde. Empolgadona, avaliava o percurso, traçava estratégia, e eu lá, nem querendo saber de nada pois tinha certeza que o que vinha domingo era espeto.

Na noite de quinta-feira mesmo pegamos o kit e o clima pré-maratona começou a me envolver. O arrepio começou na coluna e chegou à alma. Agora era vai ou racha. Não tinha mais volta.

O DIA M

Domingo, às 4h30 eu já estava de pé, me arrumando para a prova que teria início duas horas depois. Tomamos café (eu como pouco antes das provas; funciono assim) e seguimos para a largada, que seria na parte continental da cidade.

Aviso sonoro dado, falei pra Delma: “Boa prova! Vá no seu ritmo que eu vou no meu!”

Seguimos juntas até o 10K ou 12K, não sei bem. Sei que depois do 14K a perdi de vista, para só revê-la no 30K, Delma voltando, eu indo.

Dagma em momento pré-apoteose na mara de Florianópolis

Antes disso, perto do 20K, avistei o Norberto junto com meus filhos e minha sobrinha. Aquilo foi emocionante! Yuri me abraçou e pediu: “Mãe, eu posso correr com você?”

Dei um beijo nele e na Isabela e respondi: “Filho, a mamãe só está na metade da prova e ainda tenho que correr muito!”, e segui.

De volta ao 30K, como é difícil chegar nessa marca! Mas ali estava eu, e, por um momento, achei que conseguiria fechar a prova em tempo menor do que no Rio.

Dentro do túnel que leva para a região sul, contei que faltavam “só” 7K. Não demorou um quilômetro para eu já não enxergar nada na minha frente.

Acho que exatamente nesse ponto começava a subida da ponte de volta ao continente. Foi aí que perdi toda a minha dignidade de corredora.

Eu mais caminhava e trotava do que corria, a dor nas pernas se tornava lancinante, a bolha no dedão esquerdo ameaçava explodir, a vontade de parar era recorrente.

Com tudo isso, algo falava no meu ouvido: “Nada de desistir! Você veio até aqui, a chegada é só questão de tempo.”

E assim foi. Veio o 40K, e, no 41K, deixei tudo. Nada de caminhar. Isso seria o suprassumo da humilhação!

Dagma, Delma, a Hercílio Luz e a alegria da promessa cumprida

Arranquei forças de onde eu já não tinha e corri, devagar e chorando, no meu passo curto, até ouvir o grito da Delma, me esperando na linha de chegada.

C’est fini. Novamente me tornei maratonista!

Uma vez só não era suficiente. Abracei a Delma e falei: “Promessa cumprida, e cumprida duas vezes!”

Definitivamente uma maratona começa bem antes e termina bem depois do pórtico. Mas exatamente como todo mundo fala, a gente a conclui pensando: “onde é que vou correr a próxima?”

/ 945 Posts

Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. MARCELO LUIZ CAIXETA

    Segunda vez que leio a trajetória da corrida das duas irmãs e, pela segunda vez, me emociono, tentando sentir esse caleidoscópio de emoções. Parabéns pela linda publicação, caro jornalista. Parabéns a Dagma e Delma, dois lindos exemplos de determinação e firmeza!

    Responder

    • Dagma Caixeta

      Marcelo, Marcelo, meu querido, muito obrigada! Que bom que provoquei essa emoção em você. Definitivamente, correr qualquer um que quiser e tiver condições físicas, corre, mas terminar uma maratona, ainda que correndo devagar, como eu, não é fácil. Isso não é modéstia! É fato! Um beijão!

      Responder

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado ou compartilhado e os campos obrigatórios estão marcados com asterisco (*).

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.