Vem, Verão

Paulo Vieira

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VOCÊ JÁ VIU ALHURES: este verão será menos quente e seco do que o anterior. Quem dá as cartas este ano é a Menina, não o Menino. A estação mais esperada do ano, que começa hoje, pelo menos não será tão hostil com os corredores, para quem cada grau acima dos 20 Celsius já faz uma diferença dos diabos.

Eu sofro aqui em São Paulo, mas meu homólogo no Rio, o Brocador Ricardo Raymundo, corta um dobrado bem maior. E é ele que volta a estes pixels nesta data festiva para falar de sua desdita sob o calor.

Vai, Verão.

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O SUOR ESCORRE PELO ROSTO, pelas pernas, costas, braços, verte torrencialmente pela aba do boné. Mudo a trajetória. Busco qualquer sombra, a da placa com o nome da rua, o galho da árvore seca, do fio de energia. Sombra de passarinho voando já me faz feliz.

Correr no calor, com o sol a pino, até o suor secar, não é mole não. A gente passa a mão na testa e sente o sal cristalizado se soltando, segue correndo e sente os efeitos da desidratação em facadas nas coxas, dores no abdômen.

Para atenuá-las, é preciso ingerir líquido, eletrólitos, cápsula de sal. Um arsenal.

É ÁGUA

A HORA DA VITAMINA C

“Quem corre no calor do Rio de Janeiro corre em qualquer lugar”. Ouvi isso de um corredor americano depois de meros 6K de cascalho na reserva da Barra da Tijuca. Às 8 da manhã. Sabia nada, o inocente: perto do meio-dia, quando voltávamos, o termômetro marcava 37˚C .

E não adianta camisa dry fit, boné de legionário, tênis refrigerado, calção e meias ultra high tech, tudo UV, nada é capaz de deter nosso derretimento.

E o protetor solar? Se passar na testa, vai cair no olho e arder. Do nariz pra baixo, escorre para a boca e deixa um gosto ruim do capeta (a hipérbole está aqui para ajudar na tradicional associação de calor a inferno).

Sem o protetor, na melhor das hipóteses, você fica com marcas ridículas na pele: nos braços delineando as bordas da camiseta; no peito, a da fita que controla os batimentos cardíacos; e nas pernas, o desenho do calção e das meias. Não vamos falar de queimaduras.

Cintos de hidratação são indispensáveis para enfrentar longas distância no calor, mas cintos e mochilas mal colocadas podem esfolar a pele. Se você tiver sorte, só vai perceber isso no banho, principalmente no banho de mar.

GARRAFA DE GUERRILHA

A NOVA LOJA DA DECATHLON

Nada, aliás, como entrar na água gelada do mar depois de uma quase insolação, correndo e saltando as ondas e espalhando água. Mas faça isso sempre perto de um posto de salva-vidas: talvez você precise de ajuda depois do choque térmico. O melhor é molhar um pezinho, depois o outro, deixar a onda alcançar o joelho… Parece que não, mas dá para fazer isso mantendo a pose de atleta.

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Mas tudo isso é café requentado perto de uma história que agora vou contar. Certa vez corri uma ultra 24 horas que acontece todos os anos num CEFAN (Centro de Educação Física da Marinha). Começa às 9h de sábado e termina no mesmo horário do domingo. É sempre em julho, mas isso não quer dizer muita coisa na Penha.

Houve muitas baixas, mesmo com a oferta de esponjas molhadas, banheiras de gelo, duchas, massagens, comida farta. Não sei como aguentei. Ao final da prova, já sentado no refeitório, ao lado da pista, um corredor fez o favor de desmaiar na minha frente.

O mesmo militar que anunciava a premiação aproveitava para chamar pelos alto-falantes os paramédicos e as ambulâncias, pois outros corredores seguiam apagando. Vi três sucumbirem ao mesmo tempo, depois mais alguns outros. Os fuzileiros navais tiveram que resgatar os que tombaram.

Bem, o verão chegou aqui no Rio – se é que algum dia ele foi embora. O calor não é brincadeira, mas nosso corpo se adapta. Com a ajuda de isotônico, água de coco e muito respeito aos próprios limites, correr no calor também pode ser divertido. 

No mínimo é um sacrifício que vai te condicionar melhor para corridas em dias mais amenos.

Maratona a menos de 10 graus? Até eu.

Calor é F.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Ana Paula

    Nem as 6 da manhã da trégua no Rio! O jeito é optar por lugares mais arejados, opto pela Quinta da Boa Vista, Paineiras, Floresta da Tijuca.

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