Corrida: prazer ou obrigação?

Paulo Vieira

OUTRO DIA, NUMA DAS MINHAS corridas crepusculares e burguesas no parque Villa-Lobos, ultrapassei um cidadão que também se servia daquele revigorante cascalho em tão mágico momento do dia. O que tornava nosso corredor digno de nota era o aparato que ele trazia consigo.

Tratava-se, acredito de um smartphone, que usava como rádio. E o que ele ouvia, e seus circunstantes – nós! – também, era um boletim do trânsito. Um boletim nobre a julgar pelo horário: a hora do rush, para usar o termo técnico.

A emissora deveria ser mainstream, CBN, fiquei com a impressão.

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É difícil imaginar como  a informação do “repórter aéreo” poderia ajudá-lo no cascalho, mas certamente ele foi até o fim de sua corrida – treino, como vocês gostam de dizer – ouvindo aquilo.

Parece descabido, quase paranoico, claramente sem-noção, mas, será? Ouvir uma música estimulante, com BPM alto também não é a mesmíssima coisa? Trata-se de uma muleta, a mesma muleta que me obriga a ligar na mesmíssima CBN (mas, no meu caso, na CBN do Rio) quando vou para a cozinha lavar a louça do domingo.

090318-N-0413B-015 CORONADO, Calif. (Mar. 18, 2009) United States National Swim Team gold medalist Michael Phelps leads his teammates back after being sent to get wet in the surf at Basic Training Command at Naval Amphibious Base Coronado. Getting wet in the cold Pacific water is a formal remediation used by Instructors at BTC. This is one of several physically demanding evolutions the team went through as they experienced a morning in the life of a Basic Underwater Demolition/SEAL student. (U.S. Navy photo by Mass Communications Specialist 1st Class Anderson Bomjardim/Released)
Prazer ou dever? Sim, o cara da frente é ele. Foto: Anderson Bomjardim/Released

Tendo a considerar que o esforço repetitivo e eventualmente sem prazer – o que talvez seja o caso da corrida para nosso amigo – reclama esse tipo de muleta.

Em maratonas, a coisa mais comum é encontrar corredores ouvindo música gospel. E eles não se incomodam em partilhar suas preferências estéticas com a gente. Na minha opinião, é muito provável que o gospel tenha naqueles camaradas o mesmo efeito estimulante que o boletim de trânsito tem no parça do Villa-Lobos.

Tanto o Salmo 23 como a retenção (congestionamento, traduzido para o paulistanês) na Voluntários da Pátria agem da mesma forma, eis meu ponto. É que a corrida não é prazerosa o suficiente para nossos amigos. Eles precisam de algo para torná-la digerível.

Eis uma explicação possível para o sucesso de provas em equipe ou gincanas do tipo Bravus Race.

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Um ultramaratonista brasileiro razoavelmente conhecido, o funcionário aposentado da Sabesp Heroi Fung, fez a união de duas coisas que me parecem absolutamente irmãs: a meditação e a corrida. Seus ensinamentos inspiraram pelo menos uma discípula, Thais Azevedo, educadora física que fundou a assessoria esportiva Meditação.

Conheci a Thais sábado passado e em breve ela dará a cara em nossos pixels.

Eu, de todo modo, não vejo tanto ascetismo na prática da corrida. Não se trata, creio, de uma sessão de zazen, estática, em que são sublimadas dores e adversidades para se chegar a um momento de tranquilidade ou iluminação. Há muito prazer envolvido deste nosso lado.

Posso estar bastante enganado, como sempre, até porque nunca passei dos 42,2K.

De qualquer forma, assim como na primeira lição de Don Juan (o do Castañeda), tudo é uma questão de achar o ponto (SIM: O PACE!) e com ele correr por horas e horas e horas. Saca só.

AS LIÇÕES DE DON JUAN E MURAKAMI

 

 

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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