Autoajuda para maratonistas

Paulo Vieira

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Você não vê muito disso por aí. Alguém que vai para a sua segunda maratona e tudo o que isso representa (tipo: pensar quase só nisso) com apenas 22 anos. Kauana Araújo, que já foi apresentada aos leitores do JQC aqui, se prepara para os 42K do Rio, em 27 de julho. Sofrendo.

Maratona é coisa, a gente pensava, para quem já passou dos 45.

Ela quer provar que estávamos todos enganados.

Para chegar lá tá sendo um suador
Para chegar lá tem de suar

A 40 dias para o dia M, percebi que esta segunda maratona vai me custar muito mais do que eu imaginava.

Se em 2013 tive de me acostumar com treinos de volume (correndo uns 70K por semana), a ênfase deste ano é intensidade. Leia-se tiro. Coisa de ame ou odeie, às vezes ao mesmo tempo. Mas já que quero fazer os 42,1K em exatas 4 horas, meu técnico elaborou uma planilha casca grossa, intensa, insana e muito, muito desafiadora.

Até a maratona, dia 27 de julho, no Rio, tenho muito mais tiros para fazer, muitos treinos longos (como por exemplo 35K num sábado, 28K uma semana depois). E tenho de conviver com o medo. Medo sim, não me envergonho de falar. Jamais pensava que, neste ano, em minha segunda maratona, meu coração fosse apertar mais ainda.

Se estou sendo mais testada do que o ano passado? Sim e não, porque ainda acredito que é praticamente impossível sentir o medo que senti em 2013. Esta segunda maratona está me fazendo descobrir sentimentos e dores dentro de mim que jamais pensei que havia. E essas dores machucam para valer.

O treinamento está pesado e permanecerá assim até o fim. Treino quase todos os dias da semana (tenho um dia de descanso, como todos os outros maratonistas mortais), mas parece que esse dia nem existe, tamanho cansaço ou desespero que estou.

Digamos que estou na fase dos questionamentos e dúvidas do que estou fazendo.

Ao mesmo tempo que sou motivada por muitas pessoas, luto para que outras não me puxem para baixo. Querendo ou não, pessoas que não conseguem produzir depositam suas frustrações nos realizadores. Eu me encaixo nesse grupo: se quero muito, vou até o fim. Como já não sou marinheira de primeira viagem, sei que as dores e sustos na hora da prova serão bem piores do que tudo que estou passando e é exatamente por isso que eu preciso trabalhar minha parte psicológica tão bem quanto a corporal.

Engana-se quem pensa que maratona só se corre com os pés.

Um dia desses, apos um treino de tiro, cheguei em casa e chorei até já não existirem mais lágrimas dentro de mim. Soltei tudo que eu queria: limei os sentimentos negativos para deixar que os bons voltassem mais fortes. Fiquei leve para analisar o que estou passando e perceber que, se eu tiver vontade e força como no ano passado (e fiz muito bem os 42km, diga-se de passagem), neste ano eu também posso e vou fazer!

Mesmo com apenas 22 anos, tenho experiência: comecei em 2010 e estou até agora correndo tão firme quanto antes. Me desafiei aos 21 anos a enfrentar a primeira maratona da minha vida, fazendo com que algo dentro de mim se transformasse e fortificasse. A maratona deu asas para a minha vida, abriu meus olhos para o mundo e fez eu saber – na prática – que dores existem sim, mas que passam. E quando vão embora o sacrifício faz todo o sentido.

Ainda tem muito chão pela frente e, cá entre nós, desistir nunca foi opção. Nem hoje, nem em 2013 e nem nunca!

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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