Comichão de corrida

Paulo Vieira

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Tatiana Ferraz se recupera da queda
A pior parte foram os dias sem correr/ Crédito: Tatiana Ferraz
Com muito prazer, recebemos o texto da colaboradora Tatiana Ferraz, que relatou aqui, tempos atrás, sua primeira experiência internacional em corridas, na meia de Buenos Aires. Ela se lesionou seriamente em casa e teve de comer o pão que o diabo amassou nos últimos três meses. Mas o (muito) pior já passou. E o diabo – ele de novo! – é que ela só pensa naquilo…

Por Tatiana Ferraz

Tinha acabado de correr quase 20K no domingo, 21 de novembro. Havia participado da 10K da Coop, em Santo André, uma prova difícil, cheia de ladeiras e com muito sol. Ao final, achei que dava para encarar a volta para casa em ritmo “trotinho básico”. Parei no Parque Celso Daniel com a medalha no peito, fiz um xixi, tomei uma água e segui correndo ouvindo meu Simonal, Santaires, Charles Aznavour (eu sei, eu sei… não combina com corrida!) e Pink Floyd. Cheguei em São Caetano cansada e feliz. Dia seguinte deixei o corpo descansar, sem imaginar o que estava para vir.

Era terça. Tinha trabalhado pela manhã, desde as 5h30 – como sempre -, fui para casa, comi algo rapidamente e tirei uma “siestita” um pouco mais curta, pois tinha uma reunião na Cásper Líbero, onde dou aulas desde 2004. Desci as escadas para o andar de baixo de casa calmamente, porém sem olhar direito para os próprios pés. Acabei pisando em “meio degrau” na metade da escada, o pé esquerdo escorregou, meu corpo virou e bati com as costas no chão.

O barulho foi grande. O grito também. Quando a Sônia (minha “secretária”) e meus filhos adolescentes tentaram me ajudar a levantar, percebi a gravidade. Me arrastei até o sofá chorando de dor, a Sônia colocou gelo nas minhas costas e na hora eu já percebi que não iria poder mais correr, pelo menos até o fim de 2013.

Ao andar, uma dor insuportável que começava do lado direito, no meio das costas, e ia até os glúteos, com reflexo por toda a parte de trás da coxa. Com muita dificuldade andei até o carro – sim, sou completamente louca – e dirigi até a avenida Paulista, pensando que o ibuprofeno permitiria que eu trabalhasse normalmente até à noite.

Quando cheguei ao estacionamento, demorei uns cinco minutos para conseguir sair do carro. Andei com muita dificuldade até o prédio e só subi para avisar que não estava mais aguentando de dor e que iria até o ambulatório. Lá tomei uma injeção de Voltaren e fui aconselhada a procurar um hospital. Fui a pé. Umas oito quadras. Achei que era melhor do que dirigir…

Nem vou falar da saga que foi aguardar oito horas em um PS para ter finalmente diagnosticadas duas fraturas, em duas vértebras: L3 e L4. Achei que poderia sair para trabalhar no dia seguinte, mas tive de ficar quatro dias no hospital, tomando Tramal na veia, junto com uma série de outros analgésicos que matavam a dor e me davam muuuito sono.

Ao final, no dia da alta, veio a triste notícia: 90 dias de repouso. E não eram 90 dias sem correr, eram 90 dias sem trabalhar! O chão caiu. Tive crises de choro, de desespero. E aí o velho e bom pensamento do lado “meio vazio” do copo: “Por que eu? Mas fui convencida de que havia tido sorte. Mais alguns dedinhos para cima e minhas fraturas poderiam ter comprometido de vez a minha qualidade de vida, os meus movimentos.

Resumindo minha recuperação: fiquei muito quietinha 15 dias e depois voltei a trabalhar com o colete escondido debaixo da roupa. Pra quem não sabe, o Colete de Putti imobiliza a parte inferior do tronco com três barras de ferro na parte posterior. Comprime a barriga e assim dá mais firmeza para a coluna vertebral em recuperação. Só tirava esse colete para tomar banho. E tinha de dormir com ele em uma das maiores ondas de calor que São Paulo já teve.

Pela lei trabalhista, é proibido trabalhar com ele, mas preferi arriscar, com o aval e o atestado de um médico que compreendeu que trabalhando bem comportada e de colete minha cabeça – e consequentemente meu corpo – estariam recuperados em pouco tempo.

Dito e feito. Semana passada, com uma nova radiografia nas mãos, fui liberada do colete. Liberada para fazer caminhadas e exercícios leves. Correr, só em quatro semanas.

Emfim, chegou o grande dia. Quarta passada, calor de 33 graus. Coloquei meu melhor tênis e fui…. andar! Uma caminhada bem intensa de uma hora pelos mesmos caminhos que costumava correr. Vi vários corredores, cumprimentei alguns deles e confesso ter sentido o coração bater mais forte quando vinha a vontade de acelerar. Mas não podia ceder à tentação. O que são quatro semanas, afinal? Poder caminhar já é um prêmio para quem ficou tanto tempo de cama! E afinal, foram só 45 dias de colete.

Lembrei de quando nadava e fazia treinamentos bem intensos visando as competições de Master. Um dia ou outro, o treinador fazia o que chamava de antitreino, que envolvia brincadeiras, descontração na piscina e nada perto dos 3 mil, 3500 metros que costumávamos treinar até cinco vezes por semana. Com o já consolidado vício pela endorfina, aquilo me irritava profundamente. Eu queria treinar, suar, melhorar a performance. Dizia isso ao Wilson, o técnico da equipe. E ele, com muita paciência, sempre me respondia que aquilo era necessário.

P.S. Por via das dúvidas e para manter a cenourinha à frente do coelho, já estou devidamente inscrita na Maratona de Buenos Aires, dia 12 de outubro. Eu corri a prova ano passado, terminei com o tempo de 5:18′ e me achei a melhor atleta do mundo. Meia maratona é bom, mas maratona é pra quem gosta mesmo. Depois de correr a primeira, a gente sente que é capaz, dá vontade de dar a volta ao mundo.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. fatima assis

    gostei muito de seu relato, estou em manaus e sofri um a fratura na t12, estou indo para sp capital me indica um bom ortopedista pois estive em 3 orotpedista e 3 opionies e querem me afastar por 90 dias.. eu vou morrer assim

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