Os papa-léguas

Paulo Vieira

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HÁ NA CORRIDA UMA SITUAÇÃO SURPREENDENTE. É quando o corredor se torna não apenas viciado na atividade, algo bastante comum, mas também viciado nas longas distâncias.

Já não é mais possível para o sujeito correr “apenas” 1 hora. O cabra quer vencer 30K, 35K, 45K – e isso, como se imagina, não toma menos de umas boas 3 ou 4 horas.

Essa situação é particularmente comum entre corredores mais velhos – quarentões e cinquentões pra cima.

Vejam o caso do Eduardo Cavalcante, o Cracrá, 50 anos. Integrante do grupo Acorja, a Associação dos Corredores da Jaqueira, o grupo de corrida do Recife que é o mais numeroso e ativo do Brasil, ele é apenas um dos acorjeanos que treina para ultras.

“Chegou um momento em que meu corpo só começou a esquentar a partir dos 15K”, disse-me ele hoje, logo depois de cumprir um “curtinho” 17K.

Semana passada ele mandou ver em dois 30K.

Cracrá, que ao contrário de tantos colegas corredores jamais foi sedentário, tendo praticado ao longo da vida diversos esportes, diz que o cascalho entrou na sua rotina quando decidiu treinar para fazer “uma única maratona”.

“Sabia o quanto era desgastante fazer essa prova.”

O curioso é que ele acabou tomando gosto pela coisa e correu antes dos míticos e desgastantes 42K uma ultra de 60K (num quinteto de revezamento em prova de 300K).

Ou seja, correu 18K além do necessário.

Em seis anos de “carreira”, ele diz já ter corrido 17 000K.

CRACRÁ NAS ENTREVISTAS SUADAS DA MARA NILSON LIMA

A HISTÓRIA DE LULA HOLANDA, O PAI DA ACORJA

QUANTO MAIS VELHO O CORREDOR, MAIS LONGO O CASCALHO?

A COMRADES VERDE-AMARELA

Um bom punhado de acorjeanos é fã da Comrades, a ultra sul-africana mais famosa do mundo, e costuma bater ponto em Durban para competi-la. É o caso do Cracrá, que vai novamente este ano.

Na verdade o povo ficou tão apaixonado pelos 90K da Comrades que decidiu emular a competição em Pernambuco. Todos os anos eles organizam entre Caruaru e Garanhuns  a maratona do Frio.

A prova consegue ser mais longa do que a Comrades em 10K – tem 100K. Mas, assim como a sul-africana, alterna ano a ano seu itinerário. Ora parte de Garanhuns, ora parte de Caruaru.

Num post devidamente listado no cardápio de links acima, José Carlos Fernando, o professor Zeca, fundador da assessoria ZTrack, que costuma levar bastante gente à Comrades, procura explicar essa atração dos mais velhos pelas longas distâncias.

Disse ele ao JQC:

“A cabeça é muito importante nas maratonas e nas ultras, mais do que nas provas curtas, de intensidade. Além disso, a chance de os mais velhos se lesionarem em treinos e provas de intensidade é maior. E se vem a lesão, eles param.”

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O Cracrá estava aqui em São Paulo estes dias, pois sua filha começou a estudar na cidade, e eu, curiosamente, estava no seu Recife.

Se não corri com o Cracrá nos seus (nem nos meus) domínios, aproveitei para me juntar ao fundador da Acorja, o Lula Holanda, que fez um bate-e-volta entre Piedade e a praia do Paiva, um 25K pra aquecer para a Mara das Praias, que a Acorja também realiza no Recife, dia 10 de março.

Eu, que parti de Boa Viagem, não consegui acordar tão cedo quanto ele, e penei com o sol do Recife. De qualquer forma, fui encontrá-lo no cascalho, um pouquinho antes do Paiva, lá pelos lados de Barra de Jangada, e voltei com ele rumo Piedade.

Creio que para mim foram uns 20K.

Correr na beira-mar em capitais do Nordeste é só para os fortes – ou para os notívagos. Quando o sol nasce, não há nenhuma proteção contra ele, e é por isso que a Mara das Praias de março começa tão cedo, às 4 da manhã. Por volta das 6h30 já é um deus-nos-acuda.

Veja, embebida abaixo, a “suada” que o Cracrá concedeu ao JQC aos 29K da última mara Nilson Lima, em Uberlândia, abril passado.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 7 (Sp, Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Eduardo Cavalcanti Neves

    Parabéns pelo texto meu amigo, esse negócio de corrida além de ser prazeroso no sentido físico é ULTRA prazeroso no aspecto AMIZADE. Forte abraço.

    Responder

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