A maratona de Curitiba, um tributo

Paulo Vieira

NO OUTRO DOMINGO, 19 DE NOVEMBRO, Curitiba incomoda sua pacata e ordeira população com mais uma edição de sua maratona.

Os 42K da capital paranaense são considerados dos mais cabulosos do país dada a altimetria neurótica do percurso, que vem sendo alterado ano a ano mas não perde sua costumeira profusão de pirambeiras.

Falaremos mais disso à frente. Hoje é dia de abrir novamente passagem para Ralph Tacconi dizer como – e a que custo – ele imprimiu sua lenda (“Aqui se forja lendas”, diria, com sua concordância ímpar, o pessoal da Uphill) no atletismo brazuca.

Naquele dia ele se tornou para todo o sempre o Monstro de Curitiba.

(O Monstro de Curitiba e, se me permitem, o Hemingway da narrativa endorfínica. Ao contrário deste editor gongórico, ele é um exemplo da contenção. Já o vejo a escrever – e a reescrever – furiosamente, e, qual o velho Papa, de pé, as dores na lombar menos perceptíveis, cabeças de alce decorando as paredes, centenas de gatos a trançar suas pernas.)

Fui.

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SE NO BRASIL VOCÊ QUISER CORRER uma maratona pra pegar gosto, corra Porto Alegre.

Se quiser correr uma maratona pra odiar, corra Curitiba.

Era mais ou menos isso que diziam pessoas experientes com quem eu conversava em 2014.

Eu, calouro no mundo dos 42K, acreditava que duas maratonas por ano eram suficientes para um amador.

Naquele ano eu havia estreado em maratonas em maio, na tradicional maratona de SP, a da Yescom – ainda não havia a SP City

Tinha apenas dois anos de “carreira” no asfalto, e embora tivesse sido alertado das armadilhas da distância, eu não considerava nada de mais enfrentá-la.

Havia terminado com sobras a minha primeira mara.

Quando me inscrevi para Curitiba, estava em forma. Tinha volume semanal de treino alto. Corria todos os dias da semana, e alguns desses dias em duas sessões. Nada de planilha, nada de periodização, nada.

Como em 2017, a prova era em novembro. Cheguei  de ônibus à cidade, no sábado, véspera da maratona. Curitiba “as usual”: tempo nublado, chuviscando.

Fiquei hospedado num hostel a 2K do pórtico de largada. Um casarão antigo cor mostarda num local que parecia ser o Centro Histórico. Havia calçamento antigo e artistas de rua.

Hospedados lá também estavam um pai e seu filho. Vieram do litoral, Paranaguá. O pai, 50 e poucos anos, ia correr a primeira maratona. Ansioso. Me disse que treinava três vezes por semana, dois de 14K, um longo de 30K.

Conversamos bastante, retiramos junto o kit, combinamos de largar juntos.

Dormir naquela noite foi difícil. A rua repleta de shows de artistas independentes, cada um com seu som. O hostel, acostumado com o clima, oferecia protetores de ouvido aos hóspedes.

Mau sinal.

Previ uma noite ruim, e assim foi. Lembro de ter visto o relógio marcar 2h30. 

Na hora da prova fomos caminhando até a largada, eu e os dois de Paranaguá. Eu ia confiante e animado.

Larguei junto com o pai. O filho esperaria. Saímos juntos num ritmo programado.

Depois do primeiro K, ele achou que estávamos muito devagar e pediu para desgarrar.

Naquele começo já percebi que havia algo estranho: subidas e descidas. Algumas em ruas estreitas e com curvas.

Além disso havia os parceiros de alguns corredores, que faziam o percurso de bicicleta. E que atrapalhavam os demais atletas, especialmente nas curvas. Muita gente reclamava.

Com tudo isso, sentia-me ótimo, correndo em pace acima do programado. Extremamente bem. Leve.

As subidas e descidas não paravam. As bicicletas tampouco. Mas eu mantinha o ritmo.

No 20K, no alto de uma ladeira, vi o pai. Parado. Alongando num muro de uma casa. “Exagerou”, pensei. Pensei também em parar para ajudá-lo.

Não o fiz, toquei em frente. A prova, implacável, cobrou caro seu preço àquele entusiasmado marinheiro de primeira maratona.

Perto do 23K fui ultrapassado por dois homens. Estavam vestidos com macaquinhos com a inscrição “Ironman”, algo incomum para aquele ambiente. Eram mais velozes que eu, mas nem tanto.

Decidi aumentar meu ritmo e acompanhá-los. Um pouco atrás, mantendo distância. Corri “junto” uns 8K.

Foi quando comecei a sentir um pouco as pernas. Era hora de decidir: segui-los e fazer um tempo sensacional mas sob risco de quebrar ou adotar uma pegada mais conservadora? 

No 30K, depois de mais uma subida, optei pela segunda opção.

Mas já não era mais o mesmo. Estava morto. Comia tudo que as barracas de assessoria ofereciam. Batatas, bananas, paçocas, géis, Coca-cola, isotônico. Tudo o que não fazia em provas, fazia ali.

Estava odiando tudo. Maratona nunca mais, pensava. Nunca havia passado uma situação daquela na vida. O ritmo caía.

“Isso aqui não é pra mim.” 

No 38K, ao dobrar uma esquina, vejo outra subida. Mais uma. Uma daquelas de matar. Suplico alto: “Mais uma não. Chega. Não aguento mais!”

Um homem forte que estava ao meu lado, tão exausto quanto eu, responde: “E tem mais uma no 41.”

“Filho da puta”, disse para mim mesmo.

Continuamos.

Depois da última subida, conforme o amigo avisara, concluí a prova em 3:16. Pace de 4:41.

Espetacular. Inacreditável. 

Só que eu estava estragado. Alguém da organização veio então me perguntar algo que não registrei. Ela puxou uma cadeira. Sentei para chupar uma laranja (ou era mimosa, como dizem os locais?)

Fiquei sentado por um tempo, mas deitei assim que possível. Na grama. Alguém veio conversar comigo dizendo ser do jornal local e pediu uma entrevista ao “forasteiro”.  Pedi desculpas e recusei.  Eu não tinha condições.

Ainda tinha que voltar para o hostel a pé. Depois de mais de uma hora do fim da prova, tentei levantar. Comecei a caminhar lentamente. 

Pedi carona, e um sujeito com a camisa do Grêmio, percebendo meu estado, me deixou na frente do hostel. Acho que se pedisse, ele me levaria nas costas.

Dormi a tarde inteira, sem comer. Acordei em condições lastimáveis, tentando achar alguma razão que justificasse aquela provação voluntária e espontânea pela qual tinha passado. 

Encontrei o pai.

O olho do velho camarada/Foto: Divulgação
O olho do velho camarada/Foto: Divulgação

Ele precisou de mais de cinco horas para concluir a prova. Quebrou feio e caminhou muitos quilômetros. Estava decepcionado.

Deixei Curitiba no fim do domingo. Minha segunda maratona me provou muitas coisas. Hoje entendo que precisava passar por isso – uma lição de humildade nesse mundo das corridas.

Cheguei arrogante e saí humilhado. A maratona não leva desaforo.

Talvez Curitiba não seja uma prova tão dura assim. Já me disseram que exagero ao falar sobre ela. Sei lá, ficou essa sensação.

A pior maratona que corri foi meu melhor tempo pessoal.

Não valeu o sofrimento.

Em 2014, eu também tive meu 7×1. A surra inesquecível.

 

 

 

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

3 Comentários

  1. Jean Francisco Zonta

    Boa Ralph

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  2. Saulo Thomaz da Silva

    Grande ralph … sensacional !!!! Um exemo de pessoa e de atleta pra mim …. ano que vem pretendo fazer meus primeiros 42 🙂 vamo aue vamo … abracaoooo

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  3. Eduardo Trombini

    Belo relato, vc foi forte como sempre. Parabens Dr !

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