Testamos o TomTom Runner 3

Paulo Vieira

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A LÓGICA DEVE SER A SEGUINTE: quanto mais a gente agregar funcionalidades, melhor. Mesmo que tais funcionalidades sirvam para muito pouco.

Falo do que deve guiar a cabeça dos responsáveis por desenvolver um novo produto, digamos, de fitness, e, digamos de novo, um relógio.

É que eu passei algumas semanas com um Runner 3, bobo da empresa holandesa TomTom, que, na versão testada por este pasquim, mede batimentos cardíacos, tem GPS, bússola e tudo o mais o que se espera de um relógio, inclusive a possibilidade de marcar as horas.

A família do Runner 3, que é um sutilíssimo desenvolvimento cromático e ergonômico da linha conhecida por “Spark”, tem ainda outros quatro relógios; o aparelho de entrada, que custa R$ 999, não monitora a atividade cardíaca.

Pode ser interessante para o corredor saber a quantas anda os batimentos cardíacos, mas não consegui visualizar o pace durante a corrida, informação que seria igualmente (ou ainda mais) pertinente. Só vi o numerinho desejado nas estatísticas finais.

Como diria o Police, too much information/Foto: Divulgação
Como diria o Police, too much information. Mas o bobo é lindo/Foto: Divulgação

O aparelho também seleciona outros esportes como caminhada, natação (aguenta o tranco embaixo d’água), ciclismo e ainda um enigmático “ginásio”.

E, como diversas pulseiras inteligentes do mercado, monitora também oscilações do sono.

Vitaminado com um programa que você sincroniza a partir da internet, as possibilidades do Runner 3 aumentam, inclusive para desenhar rotas de seus deslocamentos outdoor.

Os dados podem ser enviados para programas queridinhos dos corredores, como Strava e RunKeeper.

Mas foi bem difícil concluir o download do programa.

O design, limpo e com funções escondidas num quadrado, sem botões, é o ponto alto. O relógio também sai completamente da pulseira, que, à moda do velho Swatch, tem diversas opções de cor para fazer a cabeça dos colecionadores e fetichistas cromáticos.

A bateria vai embora em duas ou três corridas, ou até mesmo antes caso você não desabilite a função “noite” do cardápio “opções” (que fica dentro da ementa “definições”).

Todos os controles são bastante intuitivos, e você acaba chegando a eles mais cedo ou mais tarde (esta pessoa aqui mais tarde) ao deslizar o quadrado de comando em direção aos quatro pontos cardeais.

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Tudo muito bom, mas a questão aqui é mais filosófica. É que se fiar demais no que diz um relógio ou um aplicativo faz com que você diminua sua percepção do próprio corpo. E isso não é bom.

Algo semelhante se passa quando se usa amortecimento demais sob as plantas dos pés.

Cheguei a correr com frequência cardíaca a 220, o que deve dar 130% de esforço para minha idade provecta, mas naquela hora eu estava realmente muito longe de realizar meu máximo potencial cardiovascular.

Por outra, na hora do sapeca iaiá, no meio do sofrimento das ladeiras intermináveis, o batimento caía para níveis muito aceitáveis, na casa dos 150-160.

Há mais um problema, embora saibamos que a TomTom não tem absolutamente nada com isso. É que ter um bobo atraente no pulso é sempre um motivo a mais de preocupação num país violento como o Brasil.

CONCLUSÕES

Pontos altos: design, bússola, geração de rota outdoor (desde que sincronizado com um programa a ser baixado da internet).

Ponto baixos: bateria curta, falta de marcador de pace

Preço: R$ 1 599 (olhando o  que se faz com o consumidor brasileiro, nada que assuste, mas ele custa US$ 250 lá fora; o “irmãozinho” que não monitora batimento cardíaco sai mais em conta: R$ 999)

Se eu compraria? Não, mas não por hipotéticas limitações do aparelho. Não o compraria pelo contrário, por ter recursos demais. Ter à disposição muitos dados à mão, ou ao pulso, pode fazer com que percamos a real medida das coisas.

Com a frequência cardíaca ocorreu exatamente isso.

Se eu pudesse escolher uma única funcionalidade para o relógio, ficaria com o GPS. Mas pagar 1 600 pratas só para isso me parece um tanto exagerado.

Perdoem-me a platitude, mas a gente compra esses aparelhos muito mais por boniteza do que por precisão.

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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