A primeira maratona da mãe que corre

Paulo Vieira

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O QUE SENTE A TIGRADA AO CONCLUIR a primeira mara? No meu caso, no já remoto ano de 2015, em São Paulo, a presença de minha filha mais velha, então com 9 para 10 anos, que decidiu correr comigo os 500 metros que faltavam até o pórtico de chegada, impactou toda a percepção do momento.

O negócio já era do grande cacete, ficou ainda maior.

Disse-o assim, neste mesmo pasquim num post antológico, hão de perdoar-me a imodéstia: “Eu não aliviei, operava naquela hora por instrumentos, e Maria Vitória segurou o pace altíssimo para ela.

Em dado momento, cones brancos se multiplicaram aos zilhões, como que a defender a meta inimiga –  a linha de chegada. Cheguei a pensar no paradoxo de Zenão, em que a tartaruga larga na frente de Aquiles e jamais pode ser alcançada: sempre vai haver metade, depois metade da metade, mais à frente metade da metade da metade, e assim sucessivamente, da distância a ser superada.”

E segui:

“Não fosse a Vitória ali, aqueles segundos finais teriam sido uma bad trip de almanaque.

Pernas e “core”não davam sinais de esgotamento, bem longe disso, mas eu me sentia saindo de um concerto dodecafônico escrito para o Nine Inch Nails. A cabeça orbitava em algum sistema solar distante.”

Fabiana (esq.) e Vanessa, que correram juntas a mara de Floripa

A Fabiana Gomes, cujo perfil @eusoumaequecorre no Instagram  tem pouco mais de 9 mil seguidores, teve razões de sobra para viver um, digamos, torvelinho de emoções ao cruzar a linha dos 42,2K de sua primeira mara, a de Floripa, anteontem.

Com dois filhos, um deles de apenas 4 anos, sem empregada doméstica e não possuindo o privilégio do home office, Fabiana não tem exatamente tempo sobrando para o cascalho.

Além disso, sua biografia endorfínica é de arrepiar. Chegou a pesar 97 quilos – e quando ganhou seu segundo bebê, 107. Recorro à sem-cerimônia de me citar novamente, agora do perfil que fiz dela em dezembro de 2017.

“Em apenas 13 meses – meses, não anos – ela saiu de um 10K feito em 1:26, sua primeira disputa de corrida, para a vitória em sua categoria nos 15K da Sargento Gonzaguinha de ontem, tradicional prova do calendário de Sampa.

Fabi fechou em 1:08:36, pace de 4:34, mesmo tendo de superar uma muvuca digna da rua Galvão Bueno em tarde de domingo. No geral feminino, terminou em quinto.”

Ao mesmo tempo em que evoluía nas provas curtas, Fabi foi mirando o fetiche-mor. Afinal, tinha há tempos uma marca da meia maratona espetacular, 1:41, além de em 2017 ter abiscoitado o pódio nos 21K da gincana travestida de prova de atletismo 28 Praias, em Ubatuba.

(Abiscoitado tu não lia faz tempo, conceda.)

Bem, a hora chegou, e eis o que ela me disse por telefone ao comentar sobre o tal momento: “chorei feito criança”.

idem, ibidem

As crianças, por falar nisso, não estavam em seu campo visual, mas mentalmente a prova era delas. “Queria terminar bem para não ficar incapacitada nos dias seguintes. A Giovanna [filha mais velha] está em semana de provas e eu não poderia me dar o luxo de não ir trabalhar.”

Para quem tem as marcas que tem nos 10K e 21K, Fabiana correu uma maratona, digamos, conservadora, pensando unicamente em terminá-la – a bem da verdade, o desejo de todo“rookie”.

A marca dos 4:14 foi compartilhada com a amiga Vanessa Ciangoli, com quem havia combinado correr em “duo”. Como Vanessa é aluna da assessoria esportiva Adriano Bastos, ouvia de tempos em tempos palavras de estímulo do próprio Adriano, que orientava seus pupilos de uma bicicleta.

O maior longão a que Fabi havia se submetido foi de 34K, e ela diz que na prova acabou se dando conta disso quando já estava no 36K. “Nessa hora, pensei: sou foda.”

Em seguida, tentou fazer com que “nenhum urso, nenhum muro” aparecesse até o fim da prova.

Ela ficou felicíssima na hora em que cruzou a marca mítica dos 42,2K, chorou sem cerimônia, como já foi dito, mas ainda mais alegre passou o domingo e a segunda-feira, quando percebeu que seus quadríceps respondiam “sem novidade” na hora de subir escadas.

A vida de mãe de dois filhos não estava em nada comprometida.

Fabiana já adianta que a próxima mara é só no ano que vem, mas antes disso ela volta ao reality show de 21K sobre a lama de Ubatuba.

Da próxima vez ela espera não cair na papagaiada dos marqueteiros de Floripa, que dizem que a mara lá “é fria como Chicago, rápida como Berlim e linda como Floripa”. A parte de Chicago em 2019 mostrou-se a mais pura propaganda enganosa.

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 7 (Sp, Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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