Juiz descola tênis e leva adolescentes da periferia para corrida de 5 K

Julia Zanolli

Iberê de Castro Dias é um daqueles sujeitos que tem talento para fazer o que lhe der na telha. Ostenta um recorde pessoal de 2h44min39 na maratona (Berlim 2014) e treina feito gente grande. É formado em direito, mas gosta tanto de corrida que resolveu escrever sobre isso – assinava uma coluna na revista Runner’s World e deve seguir com seu blog no site da Men’s Health. Escreve uns textos redondos e espirituosos que às vezes chega a dar inveja.

(Em tempo: me salvou a pele na apuração da matéria sobre o Marcelo Frommer, quando eu não sabia nem o que era acórdão).

Corredor - repórter - juiz
Com a faca nos dentes, para variar…

Além disso tudo ainda é juiz da infância e juventude  de Guarulhos e teve uma ideia linda: criou o projeto “Sua que é sua”e colocou a rapaziada para correr. Descolou tênis, inscrição para prova e levou 12 jovens em situação de extrema vulnerabilidade social para uma corrida em um domingo de sol.

Com a palavra, Iberê.

***

A história não tem grandes novidades, para dizer a verdade. Mas, como sempre, é uma história boa de ler. Sou juiz da infância e da juventude de Guarulhos. Trabalho, basicamente, com o que se convencionou chamar de “crianças carentes”.

Esses adolescentes da foto estão acolhidos comigo, naquilo que se chamava de “orfanato”. Eles não são órfãos, mas estão em situação de risco com as respectivas famílias.

Um par de tênis e um número de peito são as armas para tentar resgatar a auto-estima dos adolescentes
Um par de tênis e um número de peito são as armas para tentar resgatar a autoestima dos adolescentes

A vasta maioria é muito pobre, alguns fazem uso frequente de maconha, cocaína e álcool, alguns poucos estão fortemente envolvidos com o tráfico, tem até alguns que se prostituem. Perfil variado, mas sempre com um viés problemático, em termos sociais.

Tenho que apresentar algo que seja mais atrativo que roubar, ganhar R$ 500,00 por noite vendendo droga (mais do que a mães dele ganha em um mês de serviço…), e ainda ser rei das novinha na quebrada em que ele mora. Em suma, eu sou o Íbis, jogando contra o Barça num Camp Nou lotado…

Colocá-los para correr é uma forma de inseri-los num evento social, com milhares de pessoas, fazê-los experimentar algo novo, junto com a sociedade que não está marginalizada, apresentar uma alternativa a ficar na balada ouvindo funk e entupindo a napa de pó e, no fundo, tentar resgatar um mínimo de autoestima que ainda haja neles.

É algo totalmente incipiente. Vi que a prefeitura de Guarulhos estava organizando essa prova no domingo. Já queria armar isso com os adolescentes há tempos. Juntei as coisas.

Perguntei aos adolescentes que estão nas casas sob minha responsabilidade quem toparia participar de uma prova de 5 K, num domingo de manhã (lembre-se de que os melhores bailes funk da perifa, que boa parte deles frequenta, costumam ser na madrugada de sábado para domingo…). Dez toparam e consegui umas inscrições com a prefeitura.

Um deles me disse “topo, mas não tenho tênis nem para ir para a  escola”. Fui atrás de tênis com Asics e Nike. Cada uma arrumou um pouco.

Sexta, reuni todos na minha sala e expliquei noções básicas de como se portar numa prova de rua, como colocar o chip, como controlar o ritmo…

No domingo tive duas baixas. Saíram à noite e não voltaram para a corrida. Em compensação, apareceram 4 outros que não tinham se manifestado até então, querendo correr. Tornaram-se 12 no total. E todos completaram.

Alguns vieram direto da balada (e dois certamente tinham feito uso de drogas – maconha, lança), mas estavam lá. Correram e curtiram. Se, na próxima, eu conseguir que dois venham direto da balada, mas apenas um use drogas, já será um bom começo.

Todos são psicologicamente muito frágeis. Muito instáveis. Histórias de vida de passar uma semana chorando ao ouvir. O liame entre ir para a corrida e ficar no pancadão cheirando pó é muito tênue. É um estalo. Ver que a vasta maioria realmente foi e ainda arrastou mais dois foi legal.

O incentivo é muito mais psicológico, por enquanto. Quero que, aos poucos, a coisa se avolume. Mas o que eu queria, hoje, é que eles se sentissem minimamente inseridos na sociedade. Eles estão totalmente à margem. Sempre estiveram. Correr num dia de sol, com mais 2500 pessoas ao lado, pareceu-me uma forma. E todos pareciam bem felizes com isso.

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Julia Zanolli

Julia Zanolli começou a correr em nome do bom jornalismo quando foi trabalhar na revista Runner’s World sem entender nada do assunto. A obrigação virou curtição, mesmo depois de sair da revista. Se livrou do carro para poder andar a pé pela cidade, mas é fã assumida de esteira. Prefere falar de comida do que de nutrição e acha que ter tempo é muito melhor do que matá-lo.

5 Comentários

  1. gabriell

    Corrida otima

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  2. Felipe Arakawa

    Já tinha ouvido sobre o sonho de conseguir implementar esse projeto, num programa de rádio, onde ele conversava com o Lelo. Tomara que isso só cresça, e que o Ibis consiga, jogo a jogo, de meio a zero, ganhar uns pontinhos nesse difícil torneio de mata-mata…

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  3. Paula Rego

    Fico muito feliz em saber que vez ou outra aparece alguém com uma visão realista, porém esperançosa dos marginalizados, os excluídos. E mais que isso, alguém que vai lá e faz alguma coisa. Excelente.

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  4. Eduardo Volpe

    Iberê, parabéns pela linda atitude e que esse projeto se agigante cada vez mais, proporcionando assim uma válvula de escape para o futuro dessas crianças sem perspectivas na vida. Abç

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  5. Joao Theodoro do Vaz

    Muito interessante essa atitude do juiz Ibere, triste que nossa sociedade selvagem, só pensa em ter, e se esqueçe de ser, esses conceitos de ter são nos passados no decorrer da vida, e nos tornamos egoista, sem perceber que o outro sofre ao nosso lado.

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