O chão de Iracema

Paulo Vieira

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O texto a seguir é da jornalista Iracema Genecco, neomochileira e neocorredora, que descobriu alguns prazeres da vida aos 60. Tive o prazer de editá-la em duas matérias da Viagem e Turismo.

É muito bom saber que, aos 62 anos, posso ter um monte de homens correndo atrás de mim. Faço disso meu esporte. Calço meus tênis e saio a desfrutar esse privilégio sempre que posso, caminhando pelo calçadão da Beira-Mar Norte, em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Em seguida eles todos me ultrapassam, por isso o jeito foi aprender a correr também. Mas, não tem sido fácil! Minha genética joga contra.

Quando comecei, há alguns anos, escolhi o horário da noite, após o trabalho. No inverno sulino, a combinação corpo suado/chuva fria resultou numa bronquite que me acompanha até hoje. Meses depois, tentei correr de novo, mas uma dor intensa no calcanhar não deixava. Laudo do ortopedista: esporão plantar bilateral (inflamação no tecido que recobre os músculos do pé). Fisioterapia, anti-inflamatórios, uso de palmilhas, abandono do projeto por longo período.

Enquanto isso, comecei a ter problemas também para caminhar, sentindo dor quase insuportável na região próxima aos dedos dos pés. Novo laudo: neuroma de Morton (lesão nos nervos plantares que atinge preferencialmente corredoras). Fisioterapia, anti-inflamatórios, uso de palmilhas, abandono do projeto por longo período.

Mas como não sou de desistir por pouco, nesse meio tempo continuei praticando caminhadas, fazendo trilhas, inventei viagens. Até sentir nos ossos o que significa artrose. Ao interpretar uma ressonância, a neurologista foi enfática: “Vai já fazer alguma atividade para os músculos, pois serão eles a sustentar teu corpo daqui pra frente, não conte com a estrutura óssea já comprometida por bicos de papagaio, lordoses.” Escapei da osteoporose. Mas, disse a médica, de nada adiantam ossos bons se as articulações estão detonadas. Entrei para o pIlates, mas mantive as caminhadas com frequência.

Tentei correr de novo e já estava quase chegando nos 5K quando tive uma lesão no joelho esquerdo. No laudo: “sinais de fratura por impactação do osso subcondral no platô tibial medial”. Credo! Só não surtei porque o ortopedista manteve-se imperturbável, disse já ter visto coisa pior e que eu voltaria a correr. Fisioterapia, anti-inflamatórios, uso de palmilhas (mais protetor de joelho), abandono do projeto por longo período.

Cá estou, de novo, no caminho dos 5K, após novo intervalo por lesão no quadril (tendinite). Por ter recomeçado várias vezes, estou craque nessa parte. Sigo planilha automotivadora criada por mim e para mim, adaptada depois de consultar dezenas de sites e revistas especializadas. Desenvolvi um ritmo próprio, devagar-quase-parando, em que não sinto qualquer dor ou desconforto. Este é o sinal que me diz que posso seguir adiante.

Completar os 5K já me deixou feliz, embora provavelmente ainda não em um tempo considerado razoável para competidores. Pretendo continuar nessa faixa até melhorar, depois, quem sabe, pense nos 10K. Aliás, durante os últimos anos, meus recordes começam a se tornar inversamente proporcionais. Isto é: se no início eu fazia 5K em uma hora de caminhada, hoje estou quase fechando 1K em cinco horas. Mas, minha maratona é pessoal, só eu na pista.

De quebra, minha rotina é de fazer inveja, cartão postal mesmo. Saio caminhando nas proximidades da ponte Hercílio Luz, faço o contorno da Baía Norte até a passarela do CIC (Centro Integrado de Cultura), passando pela Ponta do Coral (trecho paradisíaco) e retorno no meu ritmo velocidade de cruzeiro, comendo chão em marchinha lenta, ouvindo minhas pisadas, minha respiração, sentindo o vento no rosto, a chuva, o sol.

Este cenário alterna-se diuturnamente: barcos, pescadores lançando a rede, peixes que saltam, gaivotas que pousam suavemente nas areias da praia. Com sorte, já vi golfinhos e até uma baleia e seu filhote. À noite, a ponte iluminada faz contraponto com o reflexo da lua nas águas da baía. Privilégio poder ver isso tudo, poder ainda correr.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

3 Comentários

  1. rachel siqueira pinho

    Parabéns Iracema por não se deixar abater. Cada recomeço mostra que tua corrida é pela vida! Bora se mexer!

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  2. Maria Cristina

    Sensacional! Acabei de ler o mochilão da Iracema e já sou admiradora. Fantástico!

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