Os desafios da Ciclocapivara

Paulo Vieira

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FECHADA DURANTE PRATICAMENTE TODO O PRIMEIRO SEMESTRE, a ciclovia do rio Pinheiros, em São Paulo, também conhecida por “Ciclocapivara” por conta da população de cerca de 80 indivíduos desses enormes roedores, reabriu em 3 de agosto com novidades.

A principal delas é a terceirização da gestão, agora sob comando da Farah Service, que assinou uma espécie de contrato de risco. Assume a manutenção geral – limpeza, corte de mato, sinalização etc. – e explora os espaços da ciclovia, recebendo da iniciativa privada que conseguir seduzir.

(o banco Santander foi seduzido.)

Para quem não é frequentador usual, as novidades são cosméticas: melhoria no piso, novas placas, troca de guaritas, reforma dos banheiros. Não se mexeu no principal, a criação de novos acessos e a interdição de longa seção sul da ciclovia, por conta das obras de uma linha elevada de metrô prometida desde as calendas gregas.

A questão é que a Farah não foi convocada para resolver esses problemas estruturais, o que torna a ciclovia uma via manca. O camarada que a usa, ou pretende usá-la como a incrível via de mobilidade que deveria ser, vê-se limitado pelas pouquíssimas entradas/saídas; caso queira percorrer todos os 21K de extensão, tem de tomar a ponte da Cidade Jardim e trocar o lado do rio, passando para a margem que não é de responsabilidade da Farah.

Uma zona, em português castiço.

Essa logística obtusa faz com que a Ciclocapivara seja menos aproveitada do que a ciclovia da avenida Faria Lima, bem menos extensa, mas que segue uma rota semelhante pela Zona Oeste. Com isso, a Capivara acaba sendo bastante utilizada pelos que pedalam apenas para treinar – até porque a Cidade Universitária, antiga área de treino, está fechada para o pedal.

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Ter sujeitos passando a milhão por você numa área estreita não é o melhor dos mundos, embora a convivência seja possível.

Falei ontem por telefone com Michel Farah, o fundador da Farah Service, sobre essa e outras questões. Veja os principais pontos da entrevista.

VELOCIDADE X MOBILIDADE

“Cerca de 5 mil dos 28 mil usuários da ciclovia a utilizam para treinos, e esse é um conflito que não está equacionado, como não estão equacionados os diversos conflitos pela cidade, o de carro com bicicleta e até mesmo o da bicicleta com o transeunte. O que estamos fazendo é conversar com todos para buscar uma solução. Nesta sexta [21 de agosto] faremos uma primeira reunião de ‘convivência’. Tentaremos aprender a se comportar nesse meio. Aqui não há apenas infringência de velocidade máxima, tem muita gente que pedala sem  máscaras, por exemplo. Mas a gente não tem poder fiscalizatório, nem quer ter, e não queremos excluir ninguém.”

CONDOMÍNIO DE ADMINISTRADORES

“Considerando os dois lados, o oeste e o leste, há 16 concessionárias responsáveis pelas margens do rio Pinheiros. A gente só cuida da ciclovia do lado leste, mas a gente quer conversar, quer enviar propostas para cuidar do outro lado. Não adianta nada para o usuário saber disso, ele precisa usar os dois lados enquanto houver a interdição [na leste] por conta do monotrilho. Como há muita reclamação de segurança lá, a gente costuma avisar a polícia quando fica sabendo de alguma coisa.”

O QUE JÁ É – E O QUE VEM POR AÍ

“Até janeiro, a gente espera colocar 600 postes de iluminação, o que vai permitir estender o horário de utilização da ciclovia. Também está para funcionar um conjunto de chuveiros de um pessoal de uma startup. Falta um acerto com a Enel [a concessionária de eletricidade do estado de São Paulo] para ligá-los. Acho que em mais 15 dias a gente já começa a operá-los. Quisemos trazer esses pequenos empresários para cá, desde que morassem perto, pois mobilidade é uma questão para a gente. Há o truck de uma tatuadora e seu filho, que estava no Uruguai. Eles fazem, de graça, tatuagens em quem se submeteu a mastectomia e não colocou prótese. E também tem o bike-café de um cara que perdeu o emprego na pandemia e mora na região da Vila Leopoldina.”

AS CAPIVARAS

“Nós amamos as capivaras, e elas vão continuar ali. Além disso, estamos mapeando toda a vida animal do rio, tem preá, urubu, carcará. A gente decidiu não capinar a grama da talude, para que as capivaras possam comer ali, sem precisar atravessar a ciclovia em busca de alimento. A capivara não transmite doença, quem transmite é o carrapato, e ainda assim nem todos os carrapatos, aparentemente 5% deles.”

Foto da home: Paulo Henrique Motta/Facebook

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Avatar
    Junior

    O que falta mesmo é a vontade de mudar, de fazer algo realmente bom pela prefeitura e governo do estado.
    A ciclovia da marginal oeste está abandonada, completamente. A do lado leste, finalmente houve essa mudança (é o início e espero que não parem!) Mas se investe muito pouco ainda em imobilidade urbana pois não traz votos.

    Responder

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