A lenta volta à rotina – e à corrida – na Alemanha

Paulo Vieira

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ELE JÁ FREQUENTOU MUITO ESTES PIXELS. MAS DESDE QUE RICARDO HENRIQUE, o maratonista desencanado, mudou-se para Berlim, em 2017, suas participações aqui ficaram mais rarefeitas.

Ricardo não abandonou o cascalho. Pelo contrário, agora tem na porta de sua casa trilhas rurais que o leva para o cinturão verde da capital alemã.

Além disso, está na cidade de uma das maras mais desejadas e rápidas do mundo, aquela onde os recordes são quebrados.

A maratona de Berlim, aliás, também não escapou da onda de adiamentos e/ou cancelamentos. O setembro de costume agora virou sabe Deus quando – a proibição de eventos com mais de 5 mil pessoas vai até o fim de outubro.

Com um coeficiente bastante baixo na relação mortes por infectados da Covid-19, a Alemanha está lentamente a flexibilizar as medidas de distanciamento social. Ricardo aproveitou para ganhar o cascalho e mandou este texto para os amigos do JQC.

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SEIS E MEIA DA MANHÃ E O SOL se espalha pelo quarto me atingindo diretamente nos olhos. É assim, quase eufórico, que sou arrancado da cama para ir correr. Agora sem a necessidade de camadas de roupas para me proteger do frio – inverno alemão é brabo.

Abro a porta de casa e começo a correr pela rua que vai dar na floresta. Sacos de lixo amarelo pendurados nas grades dos portões me lembram que hoje é dia de coleta de lixo do tipo “kunststof” (material plástico).

Em poucos minutos chego à trilha que leva a outras trilhas que se espalham por entre as árvores.

Noto que as plantas estão mais vivas do que nunca, suas cores fortes brilhando na claridade, eis a energia que o calor do sol nos dá a todos! O dia está lindo.

Para quem viveu no Rio e teve a vida toda o calor como algo insofismável, posso dizer que agora, depois de passar pelo inverno alemão, ele é simples e necessariamente desejável.

MARATONISTA DESENCANADO NA MARA DE BERLIM

ESPECIAL MARA DE BERLIM – A VEIA CÔMICA DE KIPCHOGE

A GRANDE REPORTAGEM DE GUILHERME ROSEGUINI

MARATONISTA DESENCANADO NOS 10K DA ROCINHA

DA BARRA AO CRISTO, COM RICARDO HENRIQUE

UMA CORRIDA NO MODO SHUFFLE 

CARNAVAL COM CRISTO

A temperatura marca “apenas” 15 graus Celsius, motivo de enorme alegria, não só minha, mas de todos na floresta. Dos insetos, por  exemplo, que estão animadíssimos.

Não são muitos, mas em número suficiente para me obrigar a raspar o calcanhar na perna e tirar algum que resolveu pegar carona. Há também os camicases, que preferem contato com minha boca aberta buscando ar.

O lago-espelho no caminho do maratonista desencanado

No Rio, na reserva da Barra da Tijuca, já comi muitos mosquitinhos que surgiam em nuvens. Pior ainda quando tentavam entrar pelos olhos. Nessa época é sempre bom usar óculos de sol para evitar que folhas, pequenos galhos e insetos causem estragos.

Sigo por um caminho que passa por uma longa área cercada para proteger mudas de árvores. Alguns galhos cheios de espinhos teimam em se colocar no caminho.

Viro à esquerda e pego uma trilha que acompanha o trilho dos trens e encontro um trecho que deve ter queimado há não muito tempo. São uns bons 3 mil metros quadrados de mata carbonizada.

Maratonista desencanado nos 15 graus de Berlim

Não chove há tempos, o ar é bem seco e há sempre o risco de incêndios. Sigo em frente e mais adiante passo por sob um dos elevados da A10, a autobhan (rodovia), parte do anel viário de Berlim.

Logo em seguida me deparo com um bloqueio feito com fita plástica e um cartaz informando do corte de árvores. Esse manejo florestal é feito com muito cuidado, é comum encontrar pilhas de madeiras numeradas dispostas em trilhas largas o suficiente para que veículos possam vir retirá-las.

Carros muito rápidos passam de quando em vez na autobhan acima

Li em algum lugar que a Alemanha faz inventários de suas florestas. As árvores são contadas de 10 em 10 anos e o último censo teve balanço positivo. Um terço do território alemão é de florestas, o que talvez explique o fato de eu estar correndo há quase meia hora sem ter visto vivalma.

A quarentena aqui tem sido muito tranquila, sem estresse nem pânico. Cumprimos as orientações de só sair de casa quando necessário. Fazer exercícios é considerado uma necessidade, deve-se apenas manter a distância social para não colocar os outros em risco. Talvez o uso de máscaras se torne obrigatório com a reabertura do comércio.

Meu filho retornará às aulas no início de maio, com a turma dividida em dois grupos de dez alunos que irão à escola em dias alternados.

Vou seguindo um braço do lago até que surge na minha frente uma vista de tirar o fôlego: as nuvens refletidas na superfície do lago – será isto mesmo um lago? Ou o céu?

Faço uma pausa e vejo chegar um ciclista que à distância me cumprimenta. Não estou suado, apenas as axilas, como disse o ar é bem seco e até hoje o meu nariz reclama da secura. Com isso, hoje não pretendo exagerar.

Fazia mais de uma semana que não corria devido a uma lesão que agravei na maratona de Berlim de 2017: uma inflamação no grupo de ligamentos do tornozelo direito que chegou a fazer travar o dedão do pé. Várias vezes sentia que meu osso se esfarelava.

Depois de várias recomendações de repouso, repouso e mais repouso, ganhei um bocado de peso e perdi todo o condicionamento que chegou a me permitir correr uma ultramaratona.

Pois é.

Mas aí aos poucos vim recuperando a forma até que, para animar a quarentena, propus a meu filho bater bola no jardim de casa. As filhas também chegaram, e os risos duraram até a hora em que uma forte dor na mesma região problemática me tirou de campo.

No dia seguinte, a região dos ligamentos ainda estava dolorida, mas o dedão não travava e o incômodo atrito havia desaparecido.

Só posso dizer que foi… MILAGRE. Três anos da primeira dor e vários repousos depois, foi uma partida de futebol com meus filhos que parece ter resolvido a lesão. Médicos que estiverem lendo isto, por favor, me expliquem o que se passou.

Retorno agora por uma trilha que não conhecia e me deparo com uma cadeira feita de troncos que é, segundo soube, construída para auxiliar os caçadores. São caças sazonais, de animas específicos, que proliferam e precisam ser abatidos em nome do manejo ambiental.

Faz sentido: em algumas partes da Alemanha porcos selvagens se tornaram pragas; em outras, lobos cercam rebanhos bovinos. Esbarro de novo na A10, passo por baixo de outro elevado e sigo beirando um pequeno braço do lago. O canto dos pássaros é especial.

Após mais 20 minutos de cascalho chego à minha casa. Abro a porta sem fazer barulho para não atrapalhar a aula que minha esposa dá via Zoom para seus pequenos alunos.

É isso! Há muita vida na quarentena!

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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