A baixa performance das marcas esportivas no combate à Covid-19

Paulo Vieira

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O QUE AS MARCAS ESPORTIVAS presentes no Brasil estão fazendo para ajudar instituições envolvidas no combate à Covid-19 ou para minorar o sofrimento de populações sujeitas à doença?

Tirante as raras fabricantes brasileiras, pouco.

A Alpargatas, que comercializa no Brasil a marca japonesa Mizuno, além de produzir as muito famosas sandálias Havaianas e os acessórios da Osklen, criou o que a empresa chamou de “rede do bem”.

“Doaremos, inicialmente, mais de um milhão máscaras, mais de 250 mil pares de calçados e organizamos outras ações para comunidades vulneráveis das grandes cidades do país”, disse em comunicado à imprensa Roberto Funari, presidente da companhia.

Parte do parque fabril da Alpargatas foi adaptado para produzir 250 mil máscaras nos estados do Rio de Janeiro, Paraíba, Minas Gerais e Pernambuco. Outro lote, para São Paulo, terá seus custos rateados com a Brasken.

Além disso, segundo o comunicado, cerca de 100 mil pares de Havaianas serão doados para estudantes e familiares de crianças e adolescentes de São Paulo, Campina Grande (PB), Montes Claros (MG) e outras cidades atendidos pelo Instituto Alpargatas. Em Campina Grande, 390 tênis serão doados a garis.

Há ainda doações de recipientes de álcool e insumos para a produção de kits de diagnóstico.  

A Olympikus, a grande marca esportiva nacional, preferiu não atender aos pedidos de entrevista do JQC e afirmou que irá fazer um pronunciamento sobre o assunto mais à frente.

A Nike, que apoia há bastante tempo o projeto Vida Corrida, de Neide Santos, no Capão Redondo, em São Paulo, respondeu, via assessoria de imprensa, que agora apoia também o Instituto Família Barrichello, do ex-piloto Rubens Barrichelo. Segundo o site da entidade, 2 mil pessoas são atendidas em seis projetos.

A Nike, como de costume, não “abriu os números”, ou seja, não detalhou o valor investido na ajuda.

A New Balance se manifestou após a publicação desta reportagem – veja em “Atualização”, no pé deste post.

Quanto às demais gringas, silêncio. A Asics, que se limitou a lançar uma “série de desafios no Instagram”, também recusou o pedido de entrevista do JQC. 

Os pixels ficam à disposição caso mudem de ideia.

Para Erich Beting, criador e principal executivo do site Máquina do Esporte, marcas globais como Adidas, Nike e New Balance sempre acabam por priorizar suas matrizes. “Vejo iniciativas sendo feitas nos países de origem ou naqueles onde está a força da empresa”, disse Erich por telefone ao JQC.

“Então para a Adidas, por exemplo, é mais lógico focar essas ações no mercado europeu, principal mercado dela hoje.”

A Adidas, a propósito, não fez qualquer doação ou investimento no Brasil, como confirmou a assessoria de imprensa ao JQC. Mas tem ajudado, segundo relatou em comunicado, entidades globais como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Cruz Vermelha.

Outros alvos de ajuda são hospitais sul-coreanos e uma fundação chinesa. Nos Estados Unidos, a marca alemã se associou a outra empresa para auxílio na produção de máscaras.

Para Erich, o “problema é que o mundo inteiro precisa de ajuda para combater a Covid-19”. E é, segundo ele, bastante comum nesses momentos de contração econômica as matrizes reduzirem as verbas de marketing destinadas às operações brasileiras.

Mesmo assim, o especialista diz que “esperava mais” das marcas. “Elas poderiam usar a mesma força que usam para vender tênis para vender solidariedade. “E poderiam fazer isso sem custo, pegando, por exemplo, os esportistas que patrocinam, seus assets.”

“E não há nada disso, elas estão paradas.”

Enquanto falava com a reportagem do JQC, Erich imaginou, de súbito, uma campanha que poderia fazer muito sentido para a Nike.

Aproveitando a onda de reprises de edições da Copa do Mundo, Erich sugeriu “produzir edições especiais de camisas da Seleção Brasileira, que a marca patrocina há 20 anos”. A renda poderia ser destinada aos afetados pela Covid-19.

Mesmo os raríssimos clubes de futebol – talvez seja melhor dizer o raríssimo clube de futebol – com orçamento garantido para 2020, o Red Bull, não tem nada planejado do tipo, segundo ele.

Nesse quesito quem se destaca novamente é o Bahia, o único clube de futebol brasileiro a ter inserção relevante na sociedade.

O Bahia usou a retransmissão feita pelo SporTV da semifinal do Brasileirão de 1988 para vender um ingresso virtual da partida. A renda auferida foi destinada a ex-jogadores que passam por dificuldades financeiras.

foto da home: Thuraya Al Jiboury/Flickr

ATUALIZAÇÃO

Após a publicação desta reportagem, a assessoria de imprensa da New Balance fez chegar até este pasquim informação que dá conta de que a empresa irá doar 20 mil máscaras protetoras e 3 mil protetores de rosto hospitalares (“face shields”) para hospitais e serviços de saúde de  Quixeramobim, no Ceará, e Campo Bom, Rio Grande do Sul. Nessas duas cidades ficam as plantas da Aniger, que fabrica os tênis da marca – e também os da Nike e parte da Under Armour.

Na nota, John Cullen, gerente geral da New Balance na América Latina, diz: “Sabemos que os profissionais de saúde estão trabalhando sob pressão extrema e permanecem o dia inteiro em pé, então estamos felizes em poder providenciar calçados de conforto e qualidade para aqueles que estão nas linhas de frente.”

 

 

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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