Sidney Togumi e o desafio casca-grossa da corrida de montanha

Paulo Vieira

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SIDNEY TOGUMI, 46 anos, é uma das raras referências brasileiras na corrida de montanha. Educador físico formado pela FMU, começou na natação, navegou no boom dos personal trainers e, permanente amante da vida outdoor, entrou lock, stock and barrels na trilha.

Sua assessoria esportiva Upfitrail, nascida num já longínquo 2003, prepara corredores de montanha que não costumam se contentar com desafios de pouca monta. “A menina dos olhos de todos que vão para a montanha é o Mont Blanc”, disse em entrevista exclusiva a este pasquim.

A brincadeira nos Alpes franceses não é dura apenas pelo “recorrido” de 170K. A altimetria é cabulosa, com ganho altimétrico total de 10 mil metros e pelo menos cinco passagens em picos de mais de 2400 metros. Mesmo assim, 32 mil se inscreveram para a edição de 2020. Pouco mais de quatro malucos por vaga.

Togumi é também daqueles (poucos) treinadores que vão para a galera, como o Professor Zeca, da Z-Track, useiro e vezeiro de provas como os 90K da sul-africana Comrades. Assim como seus alunos, encara desafios extremos que pessoas de cognição normal têm dificuldades de compreender.

Em 2018, atacou pela segunda vez os 330K contínuos do Tor des Géants (Rolé dos Gigantes, em português castiço), também disputado numa seção dos Alpes. Aqui o negócio é mais em cima: são 30 mil metros de ganho altimétrico.

Bicho.

Togumi Partiu num domingo e chegou num sábado, 140 horas depois da largada, o dobro do tempo do vencedor. Seu esforço pode ser visto no documentário Togumi – Tor des Géants, embebido no pé desta postagem.

“Não tem como achar que isso é saudável, que faz bem, mas trata-se de um desafio pessoal”, explicou ao editor deste pasquim. A “ressaca” que sentiu após a semana de ralação na montanha, dormindo em média duas horas a cada 24, durou cerca de dois meses, quando só então voltou a treinar com regularidade e prazer.

Nos primeiros 30 dias após a competição, ficou com as pontas dos dedos dos pés dormentes, consequência da pressão acumulada sobre aquela região.

Veja a seguir os principais pontos da entrevista, concedido em campo neutro, um café na avenida Paulista, em São Paulo.

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A EXPERTISE

“Meu conhecimento vem do que já vivi na trilha e também daquilo que os praticantes conheciam. Diferentemente da Europa, no Brasil há poucos montanhistas, e tive de aprender com essas poucas referências. Depois disso, fiz muitas pesquisas na Internet e participei de grupos de estudo, alguns deles ligados à USP.”

O GLAMOUR DA ULTRA

“Por incrível que pareça, a maratona virou uma prova curta. Discordo, acho que qualquer prova acima de duas horas já é longa. Hoje alguns alunos comentam: “Mas eu só vou correr 4 horas?!?”. Acho que a minha maior dificuldade como treinador é dizer ao atleta que ele não precisa correr tanto volume para fazer o que pretende fazer. O custo físico de se treinar grandes volumes é muito alto.”

VELOCIDADE É RESISTÊNCIA

“As pessoas acham que já que o [legendário corredor de montanha espanhol] Kilian Jornet corre 200K subindo três Everests por semana, devem fazer exatamente o que ele faz. Mas as pessoas não são o Kilian Jornet. Na montanha tem de pensar em horas, não em quilômetros. O que eu, junto com alguns outros treinadores, temos proposto, é que o tempo de quebra se dê um pouco depois, aumentando a velocidade do corredor nas horas iniciais. Se o cara corre confortavelmente a 10km/h (pace 6) por três horas e depois diminui o ritmo, vou tentar fazê-lo correr a 12km/h (pace 5) para quebrar no 36K.

MONTANHA NA… ESTEIRA

Procuro melhorar velocidade de meus atletas. Um dos preditores de performance na montanha, é, aliás, o teste de velocidade máxima de esteira. Você vai dizer: ‘Esteira? Que tem a ver com o sobe-e-desce da montanha?’. Estes dias um corredor de montanha americano quebrou o recorde de velocidade de 50K nela. Fez em três horas. O problema é que quem treina lento, fica lento.

OS PRIMEIROS PASSOS

“A grande maioria dos meus alunos já é iniciado na montanha, já está no trail. Mas se vier alguém que nunca correu na trilha, vou orientá-lo a fazer uma prova de rua. Se corre 10K em 1 hora, precisa ter em mente que vai correr 10K em duas horas na montanha. E se quiser fazer uma meia na trilha, precisará correr antes uma maratona na rua.”

O TEMPO DE CORTE

“Se a prova tem tempo de corte de seis horas, e o atleta se inscreve para brigar com essas seis horas, digo para ele que não está preparado. Para mim, é preciso que haja uma ‘gordura’ de 30%, ou seja, nesse caso ele precisaria pensar em terminar em quatro horas. É preciso considerar os imprevistos na montanha e, principalmente, a logística. Quanto de água preciso levar entre as estações? Sou muito friorento ou não? Se levar água demais, é um peso desnecessário carregado na mochila. Se levar de menos, é perrengue.”

(A ENTREVISTA SEGUE NO PRÓXIMO POST)

Abaixo, o documentário.

Foto da home: Togumi no 245K do Tor des Géants (só faltava oiteitinha) em 2018

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Avatar
    Adriana mara Baptista

    Excelente matéria.

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  2. Avatar
    Ronald C Guimarães

    Fantástico! Parabéns Sidney! Obrigado Paulo! Realmente, pessoas de cognição normal não entendem a insanidade em coŕrer 300k, mas quem conhece o Sidao, sabe do que ele é capaz, e entende a busca de superação humana. Japa, vc é fera demais!

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