Uma corrida até a Pedra Grande, na Cantareira

Paulo Vieira

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CONTO NOS DEDOS DE UMA MÃO as vezes em que subi a Pedra Grande, um dos locais com vista mais bacana da selva de pedra que é São Paulo. É curioso: daquele lugar dentro da maior floresta urbana do mundo, a da Cantareira, a gente fica bastante tempo a apreciar a cidade.

Os milhares de prédios da metrópole parecem brotar, florescer, e, como não escutamos nada, a contemplação se realiza perfeitamente, é como se São Paulo, veja a doideira, fosse a natureza.

Fui pouco lá porque adolescente e jovem adulto optava por ir mais longe serra adentro, dar um rolê em Mairiporã, ir à beira da represa, passear pelos locais aonde minha moto me permitia chegar com tranquilidade.

Para subir à Pedra Grande, que fica dentro de uma reserva ambiental estadual fechada e que só abre aos fins de semana, é preciso pagar 15 pratas – e isso restringe bastante a circulação.

Da portaria do parque à Pedra é preciso caminhar pouco menos de 4K, e nos meus tempos de moto eu talvez achasse isso um tanto exagerado. Se fosse uma única subida, o ganho entre os dois pontos seria de 220 metros.

A cidade florescendo sob a Pedra Grande

Olhando lá de cima parece que a gente está bem acima dos 1010 metros de altitude divulgados.

Pois bem, ontem decidi dar um estirão desde minha casa, na Lapa, à Pedra Grande. Diferentemente das corridas comuns dos dias úteis, aqui havia um claro objetivo de destino, embora o itinerário, que seria costurado no calor da hora, estivesse aberto.

E assim fui, fazendo os primeiros 5K numa rota convencional por Vila Romana, Pompéia, João Ramalho, Palmeiras e viaduto Antártica até cruzar o Tietê pela ponte do Limão.

Tendo preferido essa ponte, e não a da Casa Verde, ficou claro que a arborizada ciclovia da Brás Leme, playground de tantos esportistas de fim de semana da Zona Norte, estava fora da rota.

Tomei a Reims, depois a Alambari, a Urbano Duarte e a Baruel e fiquei curtindo as pequenas casas da Casa Verde – acho que nenhuma delas, aliás, da cor que dá nome ao bairro – até encontrar a avenida – adivinha? – Casa Verde.

Se tinha de subir ou descer pirambeiras não me importava, e foi assim que entrei (e saí) da Imirim.

Desci por Chora Menino – o primeiro bairro a figurar na lista quilométrica da famosa música do Premê –, passei por sobre um córrego, precisei ato contínuo subir uma escadaria e, logo depois de ouvir badalar nove vezes o sino do que suponho ser a igreja de Nossa Senhora de Fátima, estava na Nova dos Portugueses.

Fiquei poucas quadras na Caetano Álvares, que, como se sabe, praticamente termina nas bordas da Santa Inês, um dos acessos do Horto, preferindo me servir da paralela avenida dos Direitos Humanos.

Que logo desrespeitei, digo, logo deixei para subir a Ultramarino, que também avança até os muros do Horto, naquele pedaço bastante desarrumado da avenida Parada Pinto.

Então ingressei no parque quando vi um portão, ficando lá dois palitos, tempo suficiente, contudo, para encarar umas trilhas enlameadas aqui e ali.

O Horto é grande e eu entrei e saí dele em três pontos diferentes, decidindo interromper um pouco a corrida na região da Pedra Branca, ponto inicial de um ônibus que passava perto da minha casa quando eu era adolescente.

Todas essas evocações saudosistas faço-as agora, pois ontem minha cabeça absorvia outros estímulos, inéditos. É o que costuma acontecer nas corridas, especialmente aquelas que não se circunscrevem a repetir velhos itinerários ou, claro, quando ficamos a dar voltas dentro de um parque.

O que o vulgo normalmente chama de “treino”.

É por isso que é tão legal correr. A autonomia que a corrida nos dá – 15, 20, 30, 50K – faz com que possamos explorar muitos lugares diferentes. Não canso de dizer que o corredor é seu próprio ônibus – bem vermelhão, daqueles de dois andares, teto aberto no alto – de turismo.

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Com tudo isso, ainda estou longe de chegar neste relato à Pedra Grande. Eu e essa mania de emular o jornalista português que para falar do show do Prince gastou 3/4 da página dupla do Público, quiça do Expresso, a descrever seu caminho pelo metrô de Lisboa até o estádio do Benfica.

Terminemos logo com isso, que diabo!

Mas no próximo post.

 

 

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Avatar
    Tadeu Góes

    “mamãe Dolores chorou” de não o fim dessa novela!

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