Correndo a 6 graus negativos

Paulo Vieira

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O OUTUNO CHEGOU CHEGANDO A SÃO PAULO, e os corredores todos exultamos com o fim – batamos na madeira – do calor monstro do verão.

Em outro ponto do globo, contudo, em Berlim, o maratonista desencanado Ricardo Henrique tem de se entender com temperaturas um tanto mais baixas, bem mais baixas, dir-se-ia, justamente Ricardo que encetou sua carreira endorfínica no calor senegalês do Rio.

Conta como é correr na friaca, Brocadorchaussen.

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AS LÁGRIMAS ESCORREM DOS OLHOS, não por dor, sofrimento ou tristeza, mas porque o ar é seco e muito frio, e os olhos precisam de lubrificação.

Nada demorado, logo me adapto. Já passa das 8h, o sol agora brilha intensamente, mas não o suficiente para vencer o frio que mantém a neve fina por sobre a vegetação e por sobre os para-brisas dos carros.

Diferentemente de outros dias, o chão não está escorregadio, e a cada passada vou esfarelando o sal grosso jogado na véspera para derreter a neve e evitar que caiamos. O ar entra gelando as narinas e abro a boca para facilitar a respiração.

Ninja em Berlim

Continuo correndo em direção à floresta, deste lado da rua em que estou era a zona americana; do outro, a britânica. Berlim tem muita história pra contar.

No meio da floresta está a maior elevação da cidade, um monte artificial de 120 metros construído com o entulho de mais de 15 mil prédios destruídos na guerra. Mais tarde, coberto por areia e terra, serviu como base de vigilância aérea americana. 

A corrida… estou com balaclava, luvas, uma camisa térmica de manga comprida por baixo de uma jaqueta leve impermeável à prova d’água, uma calça térmica também impermeável e nos pés uma par de tênis supreendentemente confortável, solado de bota com um zíper indo até a canela, também térmico e impermeável, bem confortável, verdadeiro agasalho para os pés.

Não repeti desta vez o erro de ir para a floresta no inverno com um tênis aerado, que deixa os pés molhados e quase congelados.

Entro na mata e a temperatura cai mais um pouco, então começo a divagar.

Só saio do “transe” para me desviar de algum cachorro que passeia com seu dono numa das trilhas.

Os cachorros alemães são educados, raramente latem ou demonstram qualquer sinal de agressividade, mas sou gato escaldado, sabe como é.

Desviando de troncos, raízes e galhos caídos, retorno à trilha principal, mais larga e ampla. Aqui o sol já não penetra tanto, e embora eu já tenha corrido 2K, ainda não estou completamente aquecido – em Berlim não dá, aliás, pra sair de casa sem fazer aquecimento.

Passo pelo lago e vejo a cerca que guarda um rebanho de cervos rompida e, mais à frente, uma equipe de manutenção iniciando os reparos. Chama-me a atenção o rifle com mira telescópica e silenciador de um dos membros, verdadeiro “sniper”.

Tenho visto na TV reportagens à respeito dos lobos que ressurgem em grande número para abater ovelhas, mas isso é no sul, por aqui o problema são os porcos selvagens. Eu mesmo nunca os vi, porém em alguns condomínios as cercas têm sido reforçadas.

Vou pisando em poças, levantando lama e derrapando em troncos congelados para retornar de quando em quando à minha introspecção, aquele momento em que a corrida entra no automático e o cérebro aproveita para reorganizar os pensamentos – como se isso fosse possível.

Eu e minha família mudamos para a Alemanha para cuidar da saúde do nosso filho. A químio já terminou, mas ele tem índices muito elevados de hemoglobina, e os médicos não sabem a razão. Já fizeram muitos exames, inclusive genéticos, e agora andam retirando 600ml de sangue dele para evitar as dores de cabeça, mas os índices não diminuem.

5 DICAS PARA CORRER NO FRIO

GUIA SUMARÍSSIMO DO AQUECIMENTO

CORRENDO NA CHUVA DA SERRA DO RIO DO RASTRO

Mas vamos lá, um dia após o outro.

Ouço um canto de pássaro muito bonito e resolvo parar e apreciar a melodia. Busco com o olhar o alto das árvores, mas não encontro o artista que segue em sua performance, correspondida por um companheiro mais distante. Pássaros nessa época!? Devem ser migrantes atrasados, em fuga.

Olho para o relógio e vejo que percorri pouco mais de 5K, pego uma trilha de retorno, acelero um pouco e vou repetindo as notas da música que acabei de ouvir. Quem sabe não me ajuda a compor a trilha que devo para o filme de um amigo.

Corro há 40 minutos e nada do suor escorrer pelo rosto, no máximo a balaclava umedecendo sob o boné. Sinto um desgaste maior, provavelmente o corpo queimando calorias para gerar calor. Efeito talvez do jejum antes da corrida, um velho hábito.

Passo pelo estábulo, algumas meninas preparam os cavalos, mais à frente chego ao Jagdschloss (castelo de caça) e sigo pelo caminho de volta. Um casal de corredores me acena gentilmente.

O relógio marca 10K, o sol brilha forte e o termômetro registra -6˚C quando finalmente entro em casa. Com a calefação, hora de tirar camada por camada da roupa grudada ao corpo.

Uma ducha quente, um café e vamos para o estúdio, não posso perder a melodia que o pássaro me soprou.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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