Correndo por Brasília, a Teimosa

Paulo Vieira

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BRASÍLIA fAZ 59 ANOS NO próximo dia 21 de abril, mas a utopia modernista de que a capital é a maior expressão, a utopia de uma país protagonista do mundo, essa utopia, se ainda havia, foi definitivamente jogada por terra com os fatos dos últimos dias lá pra cima do Trópico de Câncer.

2019: o ano em que a sujeição voluntária tomou lugar da ambição de uma originalidade nacional.

Bem, mas não é da Brasília Capital Federal de que vou falar aqui.

Os parágrafos acima, a propósito, estão na minha coluna sonora do programa dominical Fôlego, do parça Ricardo Capriotti, da rádio Bandeirantes, do próximo domingo, 8h30.

As demais edições do programa podem ser ouvidas AQUI – e a de domingo próximo também estará neste mesmo link algumas horas depois de sua exibição.

Pois bem, a Brasília de que vou falar aqui é a do Recife, a Brasília Teimosa, mais antiga ocupação popular da cidade.

É que na minha última ida ao Amsterdão tropical, pouco antes do Carná, coloquei a famosa comunidade entre o Pina e o Atlântico na rota de um dos meus cascalhos.

Foi numa segunda-feira de trabalho, ordinária. Umas 7h30, por aí, cedo, portanto, mas não tão cedo assim para um dia de verão num lugar em que o sol nasce lá pelas 4h30.

Como estava em Boa Viagem, deixei o Segundo Jardim (ou seria o Terceiro?) pela orla mesmo, rumo norte. Logo chegava ao Pina, e em menos de 2K eu entrava numa ruazinha que me levava à avenida Brasília Formosa – genial esse nome – a Beira-mar de Brasília Teimosa.

Dali até o final do bairro, sempre pela praia, dá menos de 1,5K. Não havia muita gente se exercitando, talvez porque a labuta por ali comece realmente cedo. Avistei um grupo de mulheres razoavelmente corpulentas fazendo o que parecia ser um circuito funcional.

Logo em seguida eu já andava por sobre o arrecife, ou o recife, aquele em que Francisco Brennand implantou seu Pirocão, um daqueles falos gigantes que caracterizam o trabalho do artista, cartão postal do Recife Antigo.

Ainda que essa insólita via siga mais 1, 1,5K para além do Pirocão, fiz o retorno ali mesmo. Como é de se imaginar, não havia qualquer sombra a me consolar, a não ser a do sugestivo monumento.

Vi em Brasília Teimosa gente abastecendo seus bares pé-na-areia para mais um dia de praia que se anunciava; uma mulher talvez tresnoitada a desferir impropérios contra uma outra; um pequeno movimento de funcionários no Bar do Peixe; uma cidadã a passear com seu cachorro sem manifestar grande preocupação em recolher seus excrementos.

O parque das esculturas de Brennand/Foto: Recife em Foto

Enfim, nada muito inusitado, mas aqui isento do fastio arquitetônico noveau-riche do roteiro mais convencional da orla Boa Viagem-Piedade.

Esse cascalho previsível, é bem verdade, eu já tinha feito na antevéspera, quando fui encontrar o Lula Holanda, o fundador da Acorja, bem pra lá de Candeias, no sábado de todos os longões.

No cascalho Pina-Brasília Teimosa-Pirocão corri 11K, talvez até um pouco menos, giro que se tornou cansativo pelo sol forte e pela areia fofa de um pequeno trecho. Mas valeu ter conhecido o famoso bairro que sempre quis visitar e jamais o fazia.

Eis um dos meus porquês, não canso de dizer isso aqui, de correr. Ser o meu próprio ônibus – bem vermelhão, daqueles de dois andares, teto aberto no alto –, de turismo.
 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Avatar
    Eduardo Neves Cracrá

    Sensacional texto meu amigo. Parabéns.

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