Um 10K na Rocinha

Paulo Vieira

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RICARDO HENRIQUE, O MARATONISTA DESENCANADO, nosso homem na Cidade Maravilhosa, pede licença para contar sobre uma prova de 10K que seus quadríceps e suas retinas não esqueceram tão cedo. Avante, Brocador.

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FOI O ANDREA, UM AMIGO SUIÇO, QUE ME INDICOU A PROVA. Era 2013, e ele havia participado no ano anterior. Com a pacificação consolidada e o próprio secretário de Segurança Beltrame entre os participantes, me inscrevi.

Era uma corrida totalmente fora de padrão. O circuito foi traçado entre as ruelas, vielas, subidas e descidas da maior comunidade da America latina (era assim anunciada nas reportagens dos jornais), e havia até treino livre uma semana antes para os participantes se ambientarem.

E foi nesse treino que conheci a equipe de corridas da Rocinha e fiz amizade com vários deles. No treino de reconhecimento saí acompanhando uma turma do BOPE, turminha casca-grossa!

Entre subidas e descidas fomos nos dispersando, e, como a sinalização ainda não estava completa, logo depois de passar pela estrada da Gávea e retornar à Rocinha, entrei por uma viela errada.

A coisa toda então começou a ficar estranha.

A grande comunidade/Foto: Adam Carter
Um detalhe da grande comunidade/Foto: Adam Carter

Naquele labirinto do fauno éramos eu e um soldado do Bope que também não fazia a menor ideia de onde estava.

Cheguei a perguntar, debalde, para uma senhora se ela sabia por onde eu deveria seguir. Nessa hora, felizmente, alguém gritou: “Senhor Ricardo!”. Era o Francisco, da equipe de corridas da Rocinha, que que eu havia acabado de conhecer.

Tendo percebido que eu havia tomado o caminho errado, foi me resgatar. O soldado do Bope não disse nada, mas pareceu feliz em nos acompanhar de volta ao percurso.

No dia da prova eu e o Andrea alinhamos juntos. Mas meu amigo, mais ligeiro, foi no pelotão da frente, enquanto eu preferi cadenciar, aproveitando ao máximo a experiência. O início era uma subida pela estrada da Gávea que, entre curvas e curvas, leva a uma escadaria em que só é possível passar uma pessoa por vez. Pense um congestionamento.

Depois de 2K, entramos no parque ecológico, com árvores e chão de terra, para logo retornarmos à estrada dentro da Rocinha. Então, após uma curva à esquerda, veio a ladeira do Laboriaux. Nessa hora, o pessoal começou a gritar o nome dos corredores, que liam abaixo dos nossos números de peito.

Um deles disse:  “Meu amigo Ricardo, quanto tempo… passa em casa, tem rabada!”

A “Laboriú” é uma ladeira íngreme, sofrida e lá de cima há um mirante com uma vista daquelas que só o Rio pode proporcionar, o encontro de montanhas com o mar,  praias, lagoa, Niterói…

Seguimos por passagens estreitas e uma trilha na mata que antes da pacificação só o tráfico usava. Logo estávamos de volta à estrada da Gávea, agora entre mansões – seria aquele mesmo o caminho? Uma ladeira de paralelepípedos e, surpresa, eu estava de volta à Rocinha.

A subida agora era cruel, exigia fôlego e  fazia a musculatura arder. Entre mais escadarias e ruelas, voltamos à estrada principal da Rocinha, mas logo a deixamos para tomar pequenas passagens cheias de canos de PVC pelo chão e obstáculos que para os mais altos poderiam dar dor de cabeça.

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A MEIA DO RIO, UMA HOMENAGEM

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Quase íamos entrando nas casas cujos moradores se limitavam a olhar tudo com certa desconfiança. A descida por escadas de concreto nos levou a uma saída que desembocava na entrada do Túnel. Finalmente, depois de mais uma volta pelo comércio da comunidade, surgiu a passarela e a linha de chegada.

Ao fim dos 10K encontrei Andrea e fomos pegar nossos filhos, que iriam participar da corrida das crianças. Quando retornamos, descobrimos que o suíço tinha ganhado a prova feminina – alguém achou que seu nome era de mulher.

O projeto DE BRAÇOS ABERTOS, que organizou a prova da Rocinha, continua em outras comunidades como Vidigal, Caju, Borel, Santa Marta e tem a promessa de voltar à Rocinha ainda este ano. No Borel, a prova é no próximo dia 25 de setembro, mas as inscrições estão esgotadas.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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