Prince

Paulo Vieira

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OUVI MUITA COISA em minha vida, música pop mais do que tudo, e Prince foi o sujeito que mais idolatrei no tempo em que normalmente se idolatram músicos. Tudo começou, acho, com Little Red Corvette, de 1999, seu álbum de 1982, uma orgia de sintetizadores que tinha ainda Lady Cab Driver e, claro, a faixa-título.

Naquele tempo, um adolescente branco crescido em bairro bom era compelido a ouvir rock pesado, mas com meu amigo Squillo Zennifens curtíamos mais a porta à esquerda que dava no Chic Show e no funk – quando funk ainda não era sinônimo de funk carioca. E Prince era Deus.

O lance é que 1999 me levou a acompanhar toda a discografia do gênio solitário de Minneapolis, que eu traí já há um bom par de anos, quando ele foi se tornando cada vez mais guerrilheiro do sistema. Ele não queria que sua música tocasse de graça na internet – tente achar algo no YouTube – e eu parei de comprar discos.

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Mas o cara foi um monstro até o final, lançando um disco (duplo, triplo, quádruplo!) após o outro até sua morte, na quinta-feira. Mas para mim, preguiçoso, Prince já estava de bom tamanho nos anos 1990. Acho que o abandonei em 1996, quando lançou Emancipation e deixou de usar o sensacional acróstico TAFKAP –  The Artist Formerly Know as Prince – que adotou nos anos finais de seu contrato com a Warner.

Shame on me.

Eu teria dificuldade de escolher o Top 10 Prince que eu mais ouvi, mas certamente I wanna be your lover, faixa que abre seu segundo disco, Prince, com um falsete ainda muito discreto para um sujeito que viria a ser uma Yma Sumac da black music, me acompanhou por muito, muito tempo, inclusive num walkman numa viagem de bicicleta por Portugal (Diamond Dogs, de outro finado deste annus grotescus, também estava lá).

Não obstante toda a papagaiada dos parágrafos acima, me sinto incapaz, por minha ignóbil traição ao ídolo, de falar de Prince. Por isso fui procurar alguém que tivesse mais legitimidade para isso.

Achei outro finado, o jornalista Jean-Yves de Neufville, com quem trabalhei por uns poucos meses na revista Bizz. Lembrava de um perfil que ele escrevia sobre o “Amadeus mulato”, mas que pode ou não ter sido publicado.

Sei que não gostei, não lembro mais a razão, da palavra “cetro” que ele queria usar no título, e disse isso a ele.

Enfim: com o apoio inacreditavelmente generoso de um amigo decano da Editora Abril numa sexta pós-feriado, não consegui a matéria, mas algumas resenhas do Jean-Yves.

Elas não têm a solenidade de um obituário, evidentemente, mas se obituário você quer, vai encontrá-lo às pencas, alguns de boa qualidade, nas publicações estrangeiras. Recomendo este, do New York Times, que fala da ideologia digital de Prince – ele se tornou um ativista antimercado, uma espécie de Subcomandante Marcos da tecnologia, preocupado em minorar o atraso digital de certas comunidades.

Isto é uma singela homenagem. Então faço minhas as palavras iniciais e finais do Jean-Yves para a resenha de Sign o’ the Times, outro petardo principesco, o maravilhoso disco de 1987.

Um ano mal se passou. A gente imaginava Sua Alteza o Amadeus mulato remoendo sua paranóia – alimentada pelo fracasso de Under the Cherry Moon, o filme – no escuro de seu estúdio lilás de Paisley Park. E toma. Duas bolachas na chapa, dezesseis faixas tocadas pela graça deste louco iluminado. E que louco! (…) O som ficou despojado, quase nu, diabólico. Este é, sem dúvida, o álbum mais desconstruído e perturbador de Prince, que emerge como um dos raros artistas ainda capazes de criar algo novo e apontar novas direções para a música dita pop.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Avatar
    Marcello

    Mas também não posso deixar de registrar que fomos ao palmeiras para ver kool moe dee!! lembra?

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    • Paulo Vieira
      Paulo Vieira

      Deus do céu, Pizza, não abra essa caixa de Pandora! Sensacional, cara, putabrax

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