A corrida como terapia 2: o luto

Paulo Vieira

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Prestes a correr a Maratona do Rio, no próximo dia 27, Kauana Araújo vive uma tragédia pessoal a que poucos não sucumbiriam: a perda trágica de um irmão. Mas se a corrida como terapia para alguns têm valor metafórico, para ela é nada menos do que a verdade.

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As semanas que antecedem o Dia M não são fáceis. Tantos são os treinos, calos e o cansaço que a gente não vê a hora de acabar logo com isso e correr os 42K. Pior é ter de trabalhar e fazer faculdade, viver, enfim, mientras tanto.

Como se isso fosse pouco, uma bomba explodiu dentro de mim.

A notícia que eu perdera um irmão de uma forma violenta chegou rapidamente e, com a mesma velocidade, corroeu por dentro. Se ferida estava, ferida fiquei mais. Perder alguém jamais será algo que conseguirei tirar de letra. Em se tratando de sangue, ainda mais: dói e rasga por dentro sem escrúpulo.

Mas se o baque foi grande, a vontade de sobreviver a ele também foi. E o treino para maratona me ajuda nisso. Ainda tenho dois longões para espairecer a cabeça e muitos tiros para me livrar do que veio para machucar. Além disso, o trabalho de força se intensificou para prevenir lesões ou desconfortos antes e depois da prova. Dois dias da semana são destinados a isso, além da sessão de bike para quebrar a rotina.

De luto, mas correndo/Arquivo Pessoal
De luto, mas correndo/Arquivo Pessoal

Tudo me serve como lenitivo à dor. Serve também como motivação para persistir em direção à alguma coisa que permite manter meu coração cheio de esperança. Há certos momentos em que é preciso fazer algo muito intenso para não cair num abismo sem fim.

Ano passado, pouco antes da minha estreia em maratona, tive outra perda, a de meu avô, e, assim como daquela vez, pretendo seguir firme e disposta a usar toda minha energia e raça.

Ainda tem muito chão, muita luta e muitas barreiras para serem vencidas. Que eu não perca jamais a minha fé!

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Avatar
    Cláudia

    Ontem fez dois anos que meu irmão mais novo se foi, também de forma trágica.
    Ele tinha só 38 anos.
    Deixou uma filha linda e pentelha como ele.
    Apaixonante e apaixonado pela vida.
    Quando chegava, preenchia completamente os ambientes, e sua perda foi tal e qual.

    “… viveu morreu na minha história,
    Chego a ter medo do futuro e da solidão
    que em minha porta bate!”

    Uma vez ouvi que saudade é amor que fica. O que sinto é um misto de amor, saudade, amor, amor, saudade, saudade, saudade, amor…
    Quando nos reunimos e lembramos dele, das “coisas” que ele fazia, rimos muito, altas gargalhadas… Ele é único, me recuso a usar o verbo no passado. Seria negar a Deus acabar com tanta vida.
    Trazer a doutrina espírita na prática para a minha vida, não é fácil. Ainda mais com o desapego, como nesse caso.
    Ainda temos uma forma egoísta de amar, queremos a pessoa conosco.
    Um dia eu aprendo, afinal pra Deus nada é impossível…
    … um dia!

    Bjo!
    Bom dia!

    Responder

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