Cláudio Castilho explica como a pandemia afeta o atleta olímpico

Paulo Vieira

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QUAIS AS DIFICULDADES DE TREINAMENTO que o confinamento impõe a atletas olímpicos? Elas podem ser de tal ordem que ameacem suas carreiras?

Para o treinador Cláudio Castilho, da delegação olímpica brasileira do atletismo, sim.

E a razão é principalmente financeira.

“Se as corridas de rua não voltarem até agosto ou setembro [e tudo indica que não voltarão], vamos perder alguns. Quem não tem patrocínio pessoal, e são poucos os que têm, vão ter de trabalhar, não conseguirão sobreviver do esporte”, disse em entrevista ao JQC.

Esses atletas dependem das premiações em dinheiro das provas para tocar suas carreiras.

“Vai ser bem complicado para os que estão nas faixas dos 17 a 20, 22 anos, de clubes hoje sem recursos, pois estão acabando os projetos [de patrocínio].”

O Brasil já tem 24 atletas com índice olímpico para ir a Tóquio, mas a previsão original da delegação de atletismo de contar com 35 integrantes tornou-se bastante duvidosa.

Cláudio treina 11 corredores com histórico ou pretensões olímpicas, a campeã panamericana da maratona Adriana Aparecida entre eles.

Para ele, a maior dificuldade destes tempos de pandemia é lidar com a ansiedade e outras emoções que podem descambar para verdadeiros transtornos psicanalíticos.

“Tem dias que alguns acordam sem nenhuma vontade de treinar.”

Todos contam com acompanhamento psicológico profissional, mas, segundo o treinador, que telefona para seus comandados todos os dias, ele também acaba se desdobrando um pouco nessa função.

A programação dos 11 foi refeita. Os que estavam fora do Brasil foram repatriados.

Cláudio diz ao JQC ter reduzido para apenas 30% do habitual o volume e a intensidade dos treinos. Com isso, calcula que serão necessárias de seis a oito semanas para a retomada do condicionamento após o fim do confinamento e a abertura dos centros de treinamento.

Seus atletas têm corrido nas ruas, perto de suas casas – há pessoas que moram em locais isolados, na “roça”, uma situação teoricamente mais segura. Em São Paulo, Cláudio os orienta a usar máscaras no início das sessões.

Mesmo com o chamado “princípio da irreversibilidade”, segundo o qual uma perda de condicionamento por falta de treinos adequados não pode vir a ser revertida, o treinador não vê à frente um panorama completamente sombrio.

A razão é que as provas que conferem índice olímpico só começarão em dezembro, segundo determinação da World Athletics. Com isso, por conta da estratégia de periodização, os treinos mais intensos deverão ser feitos no segundo semestre.

CLÁUDIO CASTILHO FALA AO JQC

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Para a mais famosa atleta de Cláudio, a paulista de Cruzeiro Adriana Aparecida, que no ano que vem terá 40 anos, uma idade que no jargão eufemístico do esporte é chamada de “idade de “transição”, a pandemia foi, pode-se dizer, benfazeja.

“Ela vinha lutando contra o tempo para se recuperar de uma cirurgia feita em novembro, e ia tentar a vaga olímpica na maratona em Hannover [Alemanha], em 26 de abril. Para isso teria de fazer um camp de montanha na Colômbia 40 dias antes. Mas o processo de recuperação atrasou e ela não ficou apta para treinar em altitude em março. Se a Olimpíada fosse este ano, Adriana estaria fora”, disse Cláudio.

(Veja abaixo uma entrevista com a atleta feita por este JQC em dezembro de 2017, na USP)

Para o treinador, o adiamento dos Jogos “veio a calhar”. “Consegui reprogramar o treinamento dela, e hoje ela já faz cinco sessões semanais de corrida, 45K por semana. Está respeitando a quarentena e evoluindo bem.”

Adriana vai tentar o índice olímpico em Valencia, na Espanha, em 6 de dezembro, numa maratona cujo diretor técnico é um velho amigo do treinador. “Falei com ele ontem [anteontem], recebi o contrato da prova, está tudo confirmado.”

Adriana, cujo recorde em maratona é de um já longínquo 2012, 2:29:17 em Tóquio, teve marcas bastante inferiores nos últimos anos. Em 2018, seu recorde foi em Nova York, 2:41; em 2019, cravou 2:42:44 em Hamburgo (Alemanha).

Nos jogos do Rio, foi a melhor das três brasileiras, a 69ª colocada, com 2:43:22. Ficou quase 20 minutos atrás da vencedora, a queniana Jenina Sumgonga, 4 anos mais jovem.

Foto da home: Castilho com Adriana Aparecida (esq.) e a maratonista aquática Poliana Okamoto

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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