Serrão: “Corrida está no DNA, mas há coisas que nos desadaptam”

Paulo Vieira

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CONTINUAÇÃO DESTE POST, PUBLICADO EM 22/11

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Segue a entrevista com o diretor da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, Júlio Serrão.

JQC – Há pouco você disse que somos perfeitamente adaptados para correr maratonas ao longo da vida. E quanto ao triatlo? Somos bem adaptados para praticá-lo?

Júlio Serrão – O problema do triatlo é conciliar treinos e vida pessoal. É um esforço hercúleo. Se houver redução de sono, por exemplo, as citocinas inflamatórias vão lá pra cima, a resistência cai absurdamente. Conheço várias pessoas que fazem triatlo e não sei como trabalham, é duro, o tempo de sono e descanso diminui. Esse sujeito é muito diferente daquele que faz triatlo como meio de vida, pois este descansa, vive bem. O desafio do triatlo é conciliá-lo com a vida moderna.

JQC – E quanto a esses desafios de ultramaratona em que o sujeito corre por 24 horas seguidas, às vezes mais?

SerrãoSe houver tempo para recuperação depois, esses desafios são possíveis. Claro que o corpo vai ser levado a um nível de estresse muito alto, vai precisar se regenerar. O problema não é ficar 24 horas correndo, o problema é não dar tempo suficiente para a recuperação. Isso não difere muito de ficar 12 horas seguidas na frente do computador, dia após dia. A gente supervaloriza o estresse do esporte, mas há essa nova tragédia que são as lesões do trabalho, que são de intensidade muito maior [que as do esporte]. É engraçado que a gente glorifica essas lesões.

JQC – É prejudicial para o corredor adotar como única prática esportiva a corrida?

Serrão – Não vai ser ruim para a corrida dele, mas para a saúde, sim. Há relatos de corredores de ponta que têm densidade mineral óssea altíssima para membro inferior e de níveis quase osteoporóticos para membro superior. Só que não dá para projetar que isso vai ser ruim para a performance dele. 

JQC – Para o corredor preocupado com saúde, qual o esporte ou atividade física complementar indicada?

Serrão – O primeiro critério de escolha é conhecer aquilo que lhe dá prazer. Não adianta dizer que isso ou aquilo dá resultado quando o santo para aquela pessoa não bate, a aderência a essa prática é muito baixa. Identificado o que dá prazer, tenta-se fechar os buracos – toda atividade esportiva tem buracos – com essa outra prática. Para quem corre é fundamental uma atividade neuromuscular, HIIT, circuito funcional, musculação. É preciso ter muito bem estabelecidos os amortecedores do corpo, por isso essa dimensão neuromuscular precisa ser bem trabalhada.

JQC – Só pra entender melhor. Dá pra fugir da musculação?

Serrão – Sim. Se você não gosta dela, há o treinamento funcional, a calistenia. Há tanta opções hoje que eu diria que é bastante improvável que algo não chegue perto das coisas que você gosta. Não é mais tolerável que a pessoa não faça preparação física para correr, em que pese o nosso corpo estar muito bem dimensionado para a corrida. A exigência neuromuscular que a vida impõe hoje é muito pequena, a gente perdeu algumas adaptações fundamentais ao longo da evolução. É preciso resgatar isso para termos condições de correr com saúde.

JQC – É curioso que precisemos nos preparar para correr. A gente vê tanta gente idosa que corre muito lentamente, parece que nunca vai chegar, mas que, mesmo demorando muito, completa maratonas e ultras…

Serrão – A gente só está aqui conversando porque conseguimos correr lá atrás, se não corrêssemos teríamos sido comidos, nossa espécie teria sido extinta. A corrida está no DNA, toda a nossa estrutura está adaptada para correr. O duro é que há coisas que estão nos desadaptando por completo.  A própria introdução de um calçado muito protetor acaba fragilizando o aparelho motor. O fato de ficarmos oito horas sentados zoa a coluna. Basta correr 100 metros para ela abrir o bico. Isso não é culpa da corrida: é culpa de termos ficado oito horas sentados.

JQC – Posso inferir que você é um adepto do minimalismo (nos pés)?

Serrão – Não sou fundamentalista, não estou entre o pessoal que prega queimar tênis com drop alto. Há estratégias diferentes para pessoas diferentes. É fundamental ter uma experiência de corrida descalço, isso é  considerado um meio de treinamento. Nem todo mundo tem condição de correr com um minimalista, para alguém com sobrepeso pode ser uma estratégia suicida. Se não der tempo para se adaptar ao tênis baixo, essa pessoa vai padecer da falta de proteção. Passar de uma vez do drop alto para o zero pode ser desastroso. É preciso fazer isso de maneira bem planilhada.

JQC – Você estudou biomecânica, conhece bastante da corrida. Você a pratica?

Serrão – Sou levantador de peso, ainda pratico. Todo dia às 5 da manhã já estou treinando. Sou disciplinado, preciso disso para manter a sanidade. Quanto à corrida, corro e me dou muito mal, sou péssimo para correr. Dá uma depressão profunda saber que alguém quebrou o recorde do 5K [o queniano Robert Keter havia baixado o recorde da distância para 13min29seg dois dias antes desta entrevista ser realizada] e eu só consigo fazer essa distância com o dobro desse tempo.

 

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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