O maraturista

Paulo Vieira

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ESPECIALMENTE PARA QUEM JÁ ESTÁ entrado em anos, correr uma maratona é um fetiche como outro qualquer.

Algo do nível conhecer todos os três-estrelas Michelin (ou os 50 mais da Restaurant, para ser mais atual), “ticar” as dez montanhas mais altas, pescar um marlin azul e depois deixar a barba branca crescer para participar do concurso de sósias do Hemingway em Key West.

Costumo dizer aqui que, não fossem as limitações fisiológicas que tal vestuário impõe, o maratonista correria vestido de vinil dos pés à cabeça.

Apesar de dez entre dez preparadores físicos enxergarem nos 42K uma prova duríssima, exigente, que requer semanas de preparação, há muitos corredores que não se apertam na distância e correm a mara sofrendo menos do que se disputassem um 15K no pau.

Feito o prolegômeno, entro no assunto. Algumas pessoas usam a maratona como pretexto e, mais do que isso, critério de seleção para suas viagens internacionais.

Caso do simpático economista paulistano Tadeu Guglielmo, que neste novembro chega aos 55 anos e que curte sua aposentadoria de uma vida dedicada a vender copiadoras Xerox empilhando maratonas pelos recantos idílicos da Terra.

Graças ao jornalista e parceiro SX Xavier, ele ganhou certa notoriedade com o título de “maraturista”.

O título lhe faz justiça. Do coletivo de maraturistas, ele talvez seja “o” maraturista, dado que Tadeu tem como critério de seleção de suas maratonas o estrito interesse turístico do destino.

Não lhe move a constatação de que Berlim é rápida, Nova York, calorosa com os corredores, ou Medoc, burlesca.

O mapa atualizada das corridas de Tadeu

Tadeu fez questão de correr nos cinco continentes, depois adicionou mais um – a Antártica –, e não repete corridas.

Com isso, ele tem um scout até bastante moderado quando comparado a um Nilson Lima, que chega a correr de 3 a 4 maratonas por mês.

Tadeu corre de 3 a 4 por ano. Desde que concluiu sua primeira, Nova York, em 2003, foram 48, as duas últimas completadas nos últimos dias: Granada, na Espanha, no fim de setembro, e Lago Constância, entre Áustria e Alemanha, há uma semana.

Com três filhas adultas e viajando sem segundo ele se permitir grandes luxos – fica em hostels, por exemplo –, ele diz que pretende correr até os 100 anos.

O embaixador do maraturismo entrou nessa em desagravo ao  pai, que tinha desejo de correr a São Silvestre e acabou por falecer sem disputá-la. Correr no lugar do pai os 15K de São Paulo serviu como homenagem póstuma e  portal para sua carreira endorfínica.

E Tadeu se mantém nessa por inspiração de Joy Johnson, a octogenária senhora californiana que cruzou em último lugar a mara de Nova York, em 2010. Tempo de 8:04:59. “Foi amor à última vista”, ele diz.

A blague guarda uma certa ambiguidade, já que Johnson morreria três anos depois, cumprindo a profecia de que iria desta pra melhor com um par de tênis nos pés – o que de fato ocorreu.

Tadeu era praticamente a única pessoa que restava no pórtico de chegada e testemunhou quando Johnson fechou sua vigésima e fumaça mara de Nova York. O brasileiro se ofereceu para lhe chamar um táxi, convite prontamente recusado pela corredora.

Três anos depois, no mesmo cenário, a maratonista concluiria sua 25ª maratona na Grande Maçã com tintas ainda mais dramáticas. Sofreu uma queda no 32K, mas reergueu-se e fechou a prova em 7:57:41.

No dia seguinte, ainda em Nova York, não resistiu.

Tadeu a celebrar a 48ª e mais recente mara de sua carreira, no Lago Constância

O diálogo e uma divertida tradução tabajara desse encontro entre Tadeu e Joy podem ser lidos neste link perdido do finado blog do Ultraman Rodolfo Lucena.

No mais, como é estratégia comum entre corredores-estatísticos, como o Wanderlei Oliveira, há os desafios próprios criados a partir de coincidências númericas ou superstições.

Tadeu quer correr sua 60ª mara quando fizer 60 anos, por exemplo.

De qualquer forma, como adora o cascalho e se irrita quando não corre, ele não tem problemas em seguir uma dieta de quilômetros que o faz cumprir cerca de 3 000 K por ano – ou 58 K por semana – e se mantém assim condicionado para os estirões de 42K.

Seria bastante óbvio deixar aqui uma seleta das maras mais-mais do Tadeu, mas como ele não repete destinos, trata-se de uma seleção sujeita a revisões, obra eternamente aberta.

Tire você mesmo suas conclusões nas redes sociais do camarada ou nas matérias sensaboronas sobre o assunto, como esta da revista Exame.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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