Carlos Galvão, o homem por trás do IronMan Brasil, do 70.3 e do Triday, fala ao JQC

Paulo Vieira

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CARLOS GALVÃO, 50 ANOS, é um dos pioneiros dos eventos de corrida e triatlo no Brasil. Há exatos 19 anos ele organiza a etapa brasileira do IronMan em Florianópolis. Há menos tempo põe de pé também o circuito 70.3 (o “meioIron”, com metade das distâncias do “full”), que passa por Florianópolis, Rio, Maceió, Fortaleza e este ano estreia em São Paulo.

Há três anos também toca o mais acessível Triday, circuito de provas de triatlo sprint e olímpico (750 metros de natação, 20K de ciclismo e 5K de corrida no primeiro; o dobro das distâncias no segundo), circuito que, diz ele, não tem paralelo no mundo.

Começou com 446 competidores em 2001, hoje são 9 mil em todas as 13 provas que organiza anualmente.

Foi Galvão ainda, junto com os então sócios da grife esportiva Track&Field, que lançou o circuito de provas de corrida de rua mais bem sucedido do Brasil, o T&F.

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Galvão foi triatleta de alto rendimento e já disputou nove IronMan, mas nos últimos tempos andava um tanto afastado da água e do cascalho. A invernada se encerrou em 2019, quando voltou a competir no 70.3.

E o retorno foi com os quatro pés. Ganhou em sua categoria (50 a 54 anos) em Punta del Este, classificando-se assim para a final em Nice, na França, que aconteceu domingo passado. Lá não ficou entre os 40 ou 50 melhores da categoria, como planejava.

Galvão recebeu o editor deste pasquim na seda da sua Unlimited Sports, no Morumbi, na véspera da etapa paulista do Triday, para a entrevista cuja primeira parte você vê abaixo.

Evoé.

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A ESTREIA DE SÃO PAULO

Em 10 de novembro, a capital paulista entra pela primeira vez no circuito de provas do 70.3. A natação é na raia olímpica da USP, “o único lugar da cidade que a comporta”, segundo o organizador. Quando estiverem no pedal, os atletas seguem pela avenida do Jockey, ponte Cidade Jardim e avenida JK até entrarem na pista expressa da marginal Pinheiros pelo acesso da ponte nova do parque do Povo. A expressa estará fechada para os carros.

Só o começo/Foto: Divulgação

O pedal vai até a região do parque Villa-Lobos e depois no sentido contrário, até o Credicard Hall. Os triatletas tomam então o outro lado do rio pela ponte Estaiada, para depois retornar à USP, onde acontecem os 21K de corrida.

Para Galvão, a entrada de São Paulo no 70.3 poderia ter ocorrido antes, mas houve trocas de reitor na USP que retardaram um pouco o processo. As muitas capivaras que ficam nas margens da raia não o preocupam. “Os laudos da Cetesb (companhia ambiental de São Paulo) atestam a qualidade da água. E o  pessoal da montagem sempre me pergunta se eles vão ter um tempinho pra pescar. Tem tilápia naquela água!.”

CIDADE X CIDADE

Florianópolis está consagrada como a capital brasileira do IronMan. “É o evento mais importante de Santa Catarina, se eu o fizesse em São Paulo, se perderia na ‘selva’ de eventos daqui”. O Iron deixa R$ 30 milhões para Florianópolis. “E mesmo assim, quando tem troca de prefeito, se eles são de partidos diferentes, há sempre um trabalho de convencimento”. Para receber as etapas do 70.3, a contrapartida financeira das cidades são sempre bem-vindas, mas não passam de 5% a 10% do custo total do evento, segundo Galvão.

No Nordeste, apenas 20% dos atletas são locais, o que é um enorme estímulo para o turismo. Por isso as etapas do 70.3 estão em capitais bem estruturadas para os viajantes. Cada atleta leva de 4 a 5 acompanhantes. “Já organizei prova em Foz do Iguaçu, foi redonda, o feedback medido na pesquisa foi positivo, mas o cara vai lá, vê as cataratas e aí tá visto. Não quer mais voltar.”

TRIDAY

“Concebi do zero, não há nada análogo lá fora. É um balão de ensaio para o cara que pode ou não virar triatleta de longa distância. No primeiro ano da etapa da USP, em 2017, eram 500 atletas; passou pra 650 ano passado e em 2019 fizemos com 800. Mas acho o modelo da Triday menos ‘exportável’ do que, por exemplo, a maratona Uphill Rio do Rastro. Se no Brasil são de 100 a 150 provas de triatlo, os Estados Unidos tem 1700.”

QUEM É TRIATLETA

“Diferenciado financeiramente. Afinal, precisa de dinheiro para manter equipamento e local de treino para as três modalidades.” No IronMan, idade entre 30 e 55 anos; no 70.3, de 25 a 50. Mulheres são hoje 21%, no começo eram 15%. Homens e mulheres, a maioria deles com formação superior.

E há muitos executivos. “Eles fazem um paralelo imediato entre o triatlo e o que vivem nas empresas que lideram. Resiliência, força de vontade, positivismo, planejamento. Nos Estados Unidos, muitos executivos colocam no cartão de visitas o M (do logotipo) do Iron. Esse ‘M dot’ é a segunda marca mais tatuada do mundo, só perde pra Harley-Davidson.”

Já de “firstimers” (novatos), são de 17 a 18% no Iron e no 70.3; e de 20% a 23% no Triday. E entre eles quem mais vem é gente da corrida, da natação em segundo.

O CORREDOR EM VANTAGEM

“Digo sempre que o triatlo é definido na corrida, gente que sai na frente na água e mantém a distância ou a amplia no pedal é engolida na corrida. Quem é da maratona é capaz de recuperar de 10 a 15 minutos de déficit. Se o corredor fizer direitinho a bike e a natação, tem vantagem. Mas se apertar muito na bike vai pagar caro depois, na corrida.”  

VINTE ANOS DE CONTRATO, OUTROS CINCO NO PRELO

“Estamos pré-acertados para manter o contrato com o licenciador até 2025. Os chineses, que compraram o Iron, e os americanos, que seguem sendo da cúpula, sabem da volatilidade dos mercados emergentes e de nossos problemas com a variação do dólar. Mas mantenho a inscrição no mesmo valor. Pagar os direitos para fazer o Iron e o 70.3 é meu maior custo, é uma licença de sete dígitos.

Faço uma prova com qualidade. Prezo pela experiência. Pelo fato de ser triatleta, sei onde pega. Às vezes vêm delegados da matriz aqui e eles me perguntam ‘por que você faz isso? Não há necessidade’. Sirvo espaço nas tendas de transição, por exemplo, e algumas provas em certos países nem tenda coberta tem. A minha estrutura do Triday é tão boa ou melhor que provas de 70.3 por aí.”

PATROCÍNIO, A “DIFICULDADE ETERNA” 

A entrada da Cosan no mercado de corrida quem indicou fui eu. Eles estavam para acertar comigo, mas em algum lugar parou. Foi em dezembro do ano passado. Acho importante estarem no mercado, e espero que migrem para o triatlo. Devem pensar que corrida é mais para o público de massa, triatlo é mais nichado. Mas o ‘tri’ tem aderência também pra bancos. Perdemos a Caixa ano passado. 

Com isso, inscrição é minha principal receita, 70% de tudo. E apesar de vir de um cara que tem grana, esse cara também sofre, [a inscrição é] a primeira coisa cortada quando a coisa aperta. E ela é uma pequena parte do processo, o atleta tem nutricionista, tem de ser sócio de academia ou clube para nadar, ainda precisa achar um lugar para pedalar. Em São Paulo, com a restrição na USP ficou mais difícil. A ciclovia da Marginal é horrorosa, tem cheiro ruim, capivaras, já vi acidentes de bater de frente.”

(Veja a segunda parte desta entrevista ainda esta semana)

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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