O que vem depois da maratona?

Paulo Vieira

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QUANDO TRABALHEI NO CADERNO CULTURAL da Folha de S.Paulo, um jubileu de prata atrás, havia por parte do novo comando que eu integrava a ideia de fazer a pauta fugir dos temas normalmente definidos pela “agenda”.

Ou seja, lançamentos de repercussão de discos e livros, estreias de espetáculos pesados e coisas do tipo não iriam merecer o destaque obrigatório e tradicional de sempre.

Não iríamos ignorar a notícia, claro, mas tentaríamos inseri-la num contexto mais abrangente.

Um negócio difícil de resolver, até porque há um jogo entre o produtor cultural e os próprios jornais para que O Globo e o Estadão não deem a notícia depois da Folha.

E vice-versa.

Não sei se resolvemos bem a questão.

Dito isto, pautar-se por efemérides vai ainda mais longe. Trata-se do jornalismo mais provinciano que existe.

Que é exatamente aquele que pretendo praticar agora: eis-me aqui a falar sobre o maratonista em seu dia.

Vivo dizendo nestes pixels que maratona é fetiche, e que, em vez de calção e camiseta, o maratonista deveria ganhar o cascalho trajado dos pés à cabeça de vinil.

Não há grande diferença, na minha opinião, entre empilhar maratonas ou sessões de bondage. Nos dois casos, trata-se de realizar um desejo absolutamente pessoal, um capricho, algo que diz respeito apenas ao fetichista (esportivo ou sexual).

Se isso representa ganho ou perda de qualidade de vida, eis aí uma outra – e pertinente – questão.

Mas é preciso dizer que corredores costumamos inventariar as maratonas, e eventualmente ultras, desprezando rodagens e provas mais modestas, numa evidência de que a maratona é o fetiche do fetiche desses praticantes.

(Quem inventaria tudo, sem deixar escapar um mísero quilômetro, é o Wanderley Oliveira, o W.O., o estatístico que corre, exceção que mais do que confirma a regra.)

Este editor que vos tecla não está imune a tal fetiche.

Meu scout: nove maras e uma quantidade ignorada de meias e distâncias menos competitivas.

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ANTES DE CONSTATAR QUE hoje é o tal dia do maratonista, a efeméride supramencionada, tinha em mente escrever sobre o verdadeiro tédio que pode vir a ser correr mais uma maratona.

Há até uma sigla e um jargão para isso, DPM, depressão pós-maratona.

É curioso, pois não se espera, digamos, de um iogue que pare com a atividade por não encontrar mais desafios a vencer em sua prática cotidiana.

Padrinho deste pasquim, Sérgio Xavier Filho, a.k.a. Treinador, correu 13 maras em sua vida. Com raras falhas, desde 2004 vem empilhando uma por ano. Agora a cadência caiu para um 42K por biênio.

Perguntei-lhe se um certo fastio adveio e, se sim, como faz para burlá-lo. Disse SX:

“As motivações [para correr a mara] são pessoais e intransferíveis. Mas elas se repetem, se não por inteiro, aos pedaços. No meu caso, é o recorde. Das minhas 13 maratonas, umas dez foram por uma marca específica. Aí, com a idade passando e o desempenho caindo, inventei um híbrido. Vou pra conhecer o lugar e fazer ‘abaixo de não sei quanto’.”

“Porque maratona é pedreira. Vai cansar de treinar e provavelmente vai doer durante. Precisa ter mesmo algo mental forte, do contrário não vai.”

Para Marcos Paulo Reis, o sr. MPR, a tal DPM está em baixa.

“Antes os caras se inscreviam para a maratona pelo susto. Hoje, quando há muito mais conteúdo, o cara se prepara melhor. E não só fisicamente. Ele precisa se preparar bem para conseguir inscrição [em Londres, para citar um exemplo, nem se “preparar” bem consegue].”

“E essa história de depressão pós-maratona está acabando. Meus alunos estão sempre em construção, estão sempre querendo fazer mais, mesmo que tenham de correr mais lentamente.”

Se há maratonistas renitentes que acabam por fazer a conversão para o triatlo e eventualmente para as distâncias acima de 50K das ultras, na MPR, segundo Reis, o que ocorre é uma adesão crescente à mara.

Agora tem gente que começa a disputar maratona a partir de um plano de prova com corrida e caminhada.”

Foto da home: Flicrk/meadowsmolo

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 7 (Sp, Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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