Corredora muito vida real

Paulo Vieira

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IMAGINE QUE VOCÊ É CAPAZ DE VENCER OS 75K da Bertioga-Maresias, os 42K da mara do Rio tendo corrido a meia na véspera, a parede final da Uphill Rio do Rastro e outras provas igualmente cabulosas.

E que, depois de tudo isso, não consegue completar míseros 3K, mesmo sem ter apresentado nesses 15, 20 minutos de cascalho uma contusão verdadeiramente limitante.

A vida endorfínica da paulista de Bragança Karina Teixeira, 30 anos, é um verdadeiro florilégio de emoções, para usar uma expressão ao gosto do meu primo tijucano Eduardo Jorge.

E Karina leva a sério sua vida endorfínica. Na entrevista que concedeu ao editor deste pasquim sexta passada, foi às lágrimas ao relembrar a promessa que fez pra si mesma tempos atrás: correr o “Desafio do Pateta”, que consiste em fazer o mesmo que fez no Rio, 21K na véspera, o dobro no dia seguinte, só que na friaca de Orlando, no comecinho de janeiro.

Tem a questão da grana, que pesa muito, mas se depender da parte física e emocional, talvez ela consiga. Ontem ela deu o primeiro largo passo nesse sentido ao terminar a meia Golden Four (hoje Run), em São Paulo.

No pórtico de chegada, soltou aquele “não rotundo que trazes no peito” de que falava Brizola. Bem, sort of. Veja:

A corrida aportou na vida de Karina há apenas sete anos, quando concluiu publicidade na faculdade Anhembi-Morumbi e se deu conta que ia ficar bem mal no vestido da foto da formatura.

Mesmo discípula de Jane Fonda e useira e vezeira da aeróbica coreográfica na adolescência e no começo da vida adulta, a balança sempre havia sido uma questão, e ela finalmente decidiu testar a esteira. Logo as caminhadas foram ficando cada vez mais ligeiras.

“Sou ansiosa, sempre quis fazer tudo rápido.”

Percebeu então que os 2,5K de perímetro do lago do Taboão, postal bragantino que ela sempre teve na conta de interminável, era café pequeno.

Vieram as provas de 5 e 10K e um perfil no Instagram que logo esmagou, para usar um jargão do moribundo mundo das revistas impressas. Hoje ela tem 40 mil seguidores nessa rede.

A balança seguia em tela, mas correndo cada vez mais e sem abrir mão das coisas que gosta – como celebrar a vida, preferencialmente com cerveja –, ela incorporou a seu perfil a definição de um amigo, que um dia veio-lhe com esta: “Tu é muito vida real.”

CORRENDO NO MAIOR CLUBE DE CORRIDA DO MUNDO

MAIS BIRITA, MAIS PERFORMANCE

BEER MILE CABOCLA

MAIS CORRIDA, MAIS BIRITA

GIM, A TÔNICA

PÉ NA JACA DÁ TREINO?

CORRIDA É PRAZER, NÃO SACRIFÍCIO

PERFORMANCE E VAIDADE

E foi como @corredoradavidareal que Karina se diferenciou do mar de “influenciadores” digitais sarados, malhados, magros, tediosos, escorreitos, reféns do índice glicêmico.

A celebração da vida (e da corrida) ganhou contornos mais robustos. Ela iniciou o movimento da cerveja pós-São Silvestre – talvez não seja exatamente “pós” – ao posicionar um grupo de camaradas e seus coolers na saída do túnel da Paulista, a 1K do prédio da Gazeta, pórtico de chegada da prova. Hoje o negócio, já sem ela, cresceu e virou tradição.

Karina na mara do Rio 2018/foto: arquivo pessoal

Houve situações em que, dados os excessos da noite anterior, correr pela manhã não era nada recomendável. Virada, ela disputou uma Eco Race.

Também não se deu bem na doideira da Beer Mile.

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Há um certo cânone na educação física que ajuda a fetichizar as provas longas, sugerindo que elas exigem planejamento estrito, de preferência sob a batuta de um treinador. Pelo cânone, ninguém deveria correr mais do que duas maratonas por ano. Neste caso, Karina é anátema.

Além de tudo, ela tem um tornozelo operado e sem cartilagem, o que deve arrepiar os fisiologistas – e muito mais a ela.

Além do perfil no Instagram, Karina tem um canal no YouTube, mas se virando para pagar as contas do dia a dia, tem de atacar em todas as posições – captação, concepção, edição. É trampo.

Karina segue na pegada.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 7 (Sp, Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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