Ana Luiza, a ultra que correu 366K numa pista olímpica

Paulo Vieira

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A VISITA DELA NÃO ESTAVA PROGRAMADA, AFINAL ERA SÓ UM 5K despretensioso. Mas a edição carioca do treinão #jqc @saberbeber deste julho, ontem, na Lagoa, contou com uma participação mais do que especial, a da ultramaratonista carioca Ana Luiza de Faria Matos.

Ana está entre as dez melhores ultras do mundo segundo o ranking do site Ultramarathon Statistics. Entrou para a lista depois de percorrer 366K em 48 horas, no fim do ano passado, em Passa Quatro, na Mantiqueira mineira.

Naquele mesmo 2018 ela já havia corrido 300K, também pelo sul de Minas, e ficado com o melhor tempo geral (homens e mulheres), com 51 horas e 35 minutos, da prova “Desafio 300”.

A ultra Ana Luiza Matos, recordista em pista olímpica, com o manto JQC

Cinco quilômetros não são muita coisa para quem encara desafios de 200K ou 300K, ou esse de 366K, o naipe das ultras que ela costuma enfrentar. Mas até mesmo quem se encanta por empilhar quilômetros às centenas em provas que podem durar até dois dias inteiros um dia fez seus 5K.

O que não foi o caso dela. O début em provas desta ex-enfermeira carioca crescida na Cidade de Deus foi logo numa meia do Rio. Que ela disputou em 2007, cerca de um ano após começar a correr e uns seis depois de iniciar um processo de reeducação alimentar que a livrou de 40 dos seus então 100kg.

Mas se jamais correu uma prova muito curta – distância que “não curte”, sem trocadilho –, nos seus primeiros dias no cascalho ela viveu emoções que todo corredor iniciante vive. Aqueles cinco minutinhos de corrida seguidos por dez de caminhada que na semana seguinte viram sete de corrida para oito de caminhada, digamos, e assim por diante.

O prazer da corrida veio desse pequenino acréscimo diário de cascalho. “Pratiquei vários esportes, como natação, por um ano, e pedalo. Mas nada me dá o prazer da corrida, e particularmente a de longas distâncias”, disse ao editor deste pasquim, por telefone.

Quem vê na longa distância o mítico idílio da vida outdoor, a exploração da natureza strictu sensu, um jeito meio tarahumara de viver, talvez não consiga enquadrar Ana nesse escaninho: ela é competitiva e não se importa em correr 366K, como a de seu principal recorde, numa pista olímpica.

Que, como você sabe, tem 400 metros de extensão.

CORRENDO COM OS TARAHUMARAS

LORENA, A CORREDORA RAIZ

TELMA, NÃO SOU TARAHUMARA

DO PERU

MORRER FAZ PARTE DO JOGO NA EXPLORAÇÃO DA NATUREZA

A pista tinha medidas auditadas, e o recorde naquele “giro” de 366K só valia mesmo para pistas olímpicas, mas ela não se importou em dar 915 voltas, 35 a mais do que o necessário para quebrar o recorde.

Segundo ela, a prática de ioga e meditação a ajudou no desafio, mas haja ioga e meditação para ter cabeça para dar 915 voltas numa pista olímpica.

Seus treinos comuns podem ter rodagens semanais de até 200K, mas ela tem dificuldade de achar locais seguros no Rio de Janeiro, pois treina sozinha. Às vezes volta correndo de Copacabana, onde faz academia, para Cidade de Deus, o que dá 32K.

(Amanhã tem mais).

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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