Déficit de natureza

Paulo Vieira

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UM DOS GANHOS QUE A CORRIDA TROUXE ao editor deste pasquim foi atenuar, ainda que em pequena parte, certo déficit de natureza que ele – eu! – sente em sua vida.

Voltemos logo à primeira pessoa. Com cerca de 50 dos meus 50 e fumaça anos vividos na ex-Terra da Garoa, sem ter desenvolvido habilidades para o surfe – e a consequente viagem à praia nos fins de semana –,  praticamente esperei até a madureza para frequentar parques e áreas verdes mais suculentas.

Foi com a prática regular da corrida, que só veio nesta década, que passei a me enfurnar no parque Villa-Lobos, no velho e bom campus da USP, de quando em vez no Jaraguá, no parque da Cantareira num domingo bom.

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Mas mesmo em dia que corro no parque, chego a ficar incomodado se passo muitas das minhas horas na selva de pedra.

Talvez tenha agora descoberto as razões disso.

Trata-se do tal “déficit de natureza” citado lá em cima. O termo foi cunhado pelo jornalista norte-americano Richard Louv, especializado em temas ligados à educação, autor de livros como Childhood’s Future.

Numa visita ao Brasil em 2016, foi entrevistado pela BBC Brasil e revelou de onde veio o insight para sua contribuição à lista interminável dos transtornos psíquicos.

“Entrevistei mais de 3 mil pais e professores. Queria saber deles sobre como o cenário da infância estava mudando. E uma constante nos depoimentos foram pais reclamando de que não conseguiram tirar seus filhos de casa. Mesmo se morassem perto de áreas verdes “, disse.

O resultado dessa distância do verde, segundo o especialista, podem ser outros transtornos, como o TDAH (déficit de atenção e hiperatividade) e a obesidade.

Perguntado como a ida regular a parques e áreas verdes contribui para a vida das crianças, disse:

“Essa mudança costuma ser visível e rápida. Vou dar um bom exemplo. Recebo muitos comentários de professores que passaram a incluir mais passeios ao ar livre em suas turmas.

E, juro, perdi a conta de quantos professores me falaram exatamente a mesma coisa, com praticamente as mesmas palavras: ‘Richard, é impressionante. Meu aluno que é encrenqueiro na classe se transforma no líder quando estamos no parque’. E o que estamos fazendo com essas crianças? Dando Ritalina.”

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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