Treino para maratona: cinco dias de seca e a memória de florada da serra

Paulo Vieira

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ÀS VEZES A PICARETAGEM, qual os charutos famosos, é apenas picaretagem. Não traz embutida nela extorsão, corrupção de menores, maledicência, intenções maliciosas.

Digo isso a respeito do último post veiculado por este JQC, segunda-feira passada, em que o editor deste pasquim relatava uma corrida ao parque da Cantareira desde sua goma na Lapa, um treininho turístico de 25K e contando.

Interrompi a história antes de seu final e prometi textualmente que ela, a história, teria seguimento nestes pixels.

Pensava, como já havia feito antes, em dar um belo balão no leitorado, mas algo próximo de um milagre sobreveio. Um leitor, Tadeu Góes, escreveu para este pasquim para, até onde entendi, solicitar a continuação da história.

Talvez tenha sido apenas ironia, nos dias de hoje nunca se sabe, mas decidi levar o pleito em consideração. Afinal trata-se de um leitor.

É bem verdade que ajudou na minha decisão o fato de, a uma semana de minha oitava maratona, não ter me dignado a correr quilômetro nenhum desde aquele glorioso domingo na serra.

Cinco dias de seca, portanto, bem na hora de a onça beber isotônico.

Então vamos lá, retomando do ponto que havia terminado. Depois de me reencontrar com o 177-H Pedra Branca-Paraíso da minha adolescência, parei de correr e entrei no Horto a fim de usá-lo como atalho para o contíguo parque estadual da Cantareira.

Domingão cedo, a tigrada aproveitava o espaço para andar, trotar, jogar futebol no terrão maltratado e flanar à beira do lago.

O bebedouro providencial, primeira hidratação após talvez 1h40 de cascalho, não estava para brincadeira. A pressão desregulada fazia jorrar água numa intensidade digna de gêiser do Atacama. Mal deu para saciar a sede.

Em 15 minutos, talvez menos, atravessei longitudinalmente o Horto e saí pelo portão que acredito ser o principal. Agora era subir os talvez 700 metros até a portaria do núcleo Pedra Grande do parque da Cantareira.

Havia um problema. Mesmo tendo corrido por 17K ou pouco mais, não havia tido a competência de encontrar um caixa automático e transformar fundos virtuais em numerário.

Não sabia se o governo estadual havia modernizado suas práticas e passado a aceitar outras formas de pagamento que não dinheiro vivo naquele próprio – logo saberia que não, não havia modernizado suas práticas.

A solução do impasse, deixo-a à responsabilidade do imaginativo leitor. Nosso heroi, portanto, agora já estava de novo a correr, desta vez pela pirambeira sem fim (mentira, não é nada o fim do mundo) da trilha da Pedra Grande, a principal do parque.

Chamam de trilha, mas é um caminho largo e asfaltado.

Não foi naquela hora que repararia nas araucárias majestosas que despontam em meio daquele espetáculo de Mata Atlântica.

Uma subida constante e aguda lá pelo segundo quilômetro me fez lembrar de minha última – e talvez única – estada lá, quando com ninguém menos que Gesu Bambino pedi arrego num cascalhinho no meio da montanha.

Gesu naquela época era conhecido como “cabra” dada a sem-cerimônia com que se livrara de elevações cabulosas como a subida de Castelhanos, em Ilhabela; eu, por oposição, colocava os bofes para fora em qualquer subidinha.

Não foi difícil seguir em frente até uma plaquinha em uma encruzilhada informar que só faltavam, no cenário mais otimista, 850 metros até o objetivo.

Oitocentos e cinquenta metros não costumam ser intransponíveis, e aqueles também não o eram, até porque os verticais principais – verticais principais, da onde saiu isso? – já haviam passado.

Em pouco tempo já encarava um suave declive e o murmúrio dos visitantes se fazia ouvir.

Da Pedra Grande que se vê a Selva de Pedra Grande, a cidade parece ser a floresta.

Chamou-me a atenção os idiomas estrangeiros que ouvi, chinês sobretudo, mas também o francês falado por um grupo de quatro garotas. O pessoal que vem de fora conhecer São Paulo sabe das coisas.

Não quis descer correndo, e curti a calma daquele domingo num lugar delicioso que é aquele parque – apesar dos 15 paus do ingresso –, agora podendo fluir intensamente a mata local.

A volta ao cascalho se deu pouco depois de deixar o parque, e os 4K nos 22 minutos que se seguiram foram feitos da mesma maneira incerta e exploradora da ida.

Depois de me desviar das barracas da feira da Caetano Álvares, tomei a esquerda pela rua do hospital do Mandaqui e acabei defronte a um famoso bar da Zona Norte de que só ouvia falar, mas o péssimo atendimento naquele dia não tornou a experiência memorável.

Quer dizer, talvez tenha-na feito.

Decidi então ficar apenas numa patética água mineral. Os famosos bolinhos de arroz ficaram para outra oportunidade, talvez quando o Mika Icassatti, da Cultura de Boteco, me convidar para um rolé pela ZN.

Se a ideia era voltar de metrô, ela foi definitivamente expurgada quando decidi tornar a correr e me desviei pelas quebradas de Santa Terezinha.

O sol àquela altura já ardia como se eu estivesse em Brasília Teimosa, mas segui em frente.

Cruzei a Alfredo Pujol e caí na mesma Braz Leme de que fugi na ida, e os últimos 2,5K por ela foram bastante sofridos, daqueles dignos da velha síndrome da linha de chegada.

O que eu não sabia é que o pior estava por vir. A gente nem desconfia, mas tudo pode acontecer nesses domingos lindamente veranis – ainda que já fosse outono – quando temos a má ideia de chamar o motorista do Uber X.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 9 (4 em SP, 2 Uphill Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Tadeu Góes

    E “o direito de nascer ” segue.

    Responder

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