Quando o desafio vira fetiche, e vice-versa

Paulo Vieira

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RICARDO AUGUSTO, 51 para 52 anos, dono da pousada Spa Ventos do Cambury, em Cambury, uma daquelas  praias deliciosas de São Sebastião, escreveu-me tem algum tempo para contar de seu feito.

Que é ter atravessado a nado, no crawl velho e cumpridor, 40K, repetindo, 40K, entre a praia e o arquipélago de Alcatrazes.

Ele fez isso este ano, em abril, em noite de lua cheia – que ele diz preferir ao dia.

Foram quinze horas no braço, sem parar um minuto sequer para sentar no bote e descansar.

Embora seja um feito inédito segundo ele, Ricardo tem uma visão realista, ou melhor, relativista sobre o que fez. Acredita o Ricardo, e nisso concordamos, que feitos são aqueles que nos exigem.

Se sentem falta de um adjetivo, aqueles que nos exigem tremendamente.

“Até ai não tem nada de mais, há muitas travessias e esta seria somente mais uma, acontece que comecei a nadar há muito pouco tempo”,  disse por e-mail.

O feito de verdade, portanto, aconteceu menos nessa travessia do que num naufrágio que Ricardo  viveu em Fiji, e que o obrigou, junto com outras pessoas, a nadar por quatro horas ininterruptas para se salvar.

(Demorei tanto a dar notícia dessa travessia que no entretanto ele já fez outra maior, um 65K pela costa de São Sebastião, de que nos ocuparemos mais para a frente.)

A história de Alcatrazes, por fim, está neste vídeo, que Ricardo publicou no YouTube
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Correr uma maratona quando você já disputou várias tem muito pouco de desafio, na minha opinião. Defino essa vontade quase descontrolada de empilhar provas de 42K com uma palavra: fetiche.

Mas entrar na água e nadar qualquer distância, até mesmo um humilde 1K, representa para o editor descoordenado deste pasquim um desafio similar, penso, ao que Ricardo enfrentou em Fiji.

MARATONA, O FETICHE

Uma simples travessia da piscina de 50 metros da USP já me fez, e isso foi mais de uma vez, a parar a treta no meio, perturbado por demônios mentais.

Talvez seja por isso que sigo considerando correr mais algumas maratonas.

Voltando ao Ricardo, ele acredita que a travessia até Alcatrazes, que faz sem qualquer apoio oficial – até porque as visitas turísticas ao arquipélago passaram a ser permitidas agora –, seja um excelente teste para quem se prepara para fazer uma travessia mais famosa, a do Canal da Mancha.

Que é um enorme desafio para muitos nadadores, e um grande fetiche para outros.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 7 (Sp, Rio do Rastro, Rio, UDI e uma na Nova Zelândia), com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

Um Comentários

  1. Antonio Bellas

    Fetiche, obsessão, maluquice…..
    O blog amigo do Danilo Balu mostrou um filminho (meio Fake) de uma fulana que correu uma maratona nos EUA sem contar para família ou amigos, e escondendo o treinamento
    Os feitos, odisseias, são realizados para serem contados em prosa e verso, pois servem, no mínimo, para estimular outros pequenos feitos e conquistas.
    O Ricardo parece ser low profile, o que faz das suas travessias um feito maior ainda, e meus sinceros parabéns pela personalidade (e logico pela maratona aquática)
    Meu querido Paulo, um felicíssimo fim de ano (está me devendo uma visita ao Rio….)
    Abcs a todos

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