10K no pau ou maratona em velocidade de cruzeiro, o que cansa mais?

Paulo Vieira

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NÃO FOSSE MATERIAL COMPLETAMENTE INADEQUADO para a atividade física, o látex que cobre o corpo dos pés à cabeça do fetichista sexual poderia servir ao maratonista.

Pois, insisto, não há fetiche maior do que correr os 42K.

O corredor que termina a mara pela primeira vez tem a sensação de ter transposto uma divisa mística.

Ajuda nessa impressão o, digamos, inconsciente coletivo. Afinal, nove entre dez comentadores da corrida amadora associam à prova palavras como “respeito”, “planejamento”, “preparação”, como se fosse vedado ao candidato a maratonista ter um comportamento, vamos dizer, festivo.

É PRECISO DESRESPEITAR A MARATONA

MARATONA, O FETICHE

NILSON LIMA, O HOMEM DAS 220 MARATONAS – E CONTANDO

HEROI FUNG E A CORRIDA COMO PRAZER, NÃO COMO GUERRA

MINHA PRIMEIRA MARATONA, VIVACE  

NINGUÉM VIRA NINJA POR TERMINAR A UPHILL

AS LIÇÕES DE NUNO COBRA JR.

Fico a pensar quanto respeito é necessário para concluir a mara do Médoc, cujos postos de hidratação servem vinho bordalês, ostra e brie.

É preciso ainda caprichar na fantasia antes de alinhar para a largada.

Pois bem: uma vez tendo completado a primeira mara, correr a segunda, depois a terceira etc. vira quase uma obsessão. Mas ao contrário do que se costuma afirmar, a exigência física supostamente extenuante dos 42K pode ser muito menor do que a de um 10K feito no pau.

Respect! (Foto: S.B.–Flickr)

Embora a definição não seja exatamente precisa, o 10K é o que se chama de prova “anaeróbia”, em que as fibras musculares de contração rápida, que consomem energia advinda de processos anaeróbios – em que não há dependência crucial do oxigênio –, são protagonistas.

Na mara, importa mais manter certa cadência, uma velocidade de cruzeiro, digamos, ritmo que pode vir a ser bastante confortável.

Daí a pouca dificuldade de muita gente, pessoas acima dos 40, 50, 60, 70 anos, de empilhar maratonas e ultras no currículo.

Treinador diletante de corrida e orientador de diversos maratonistas e ultramaratonistas, Heroi Fung, ouvido por este pasquim, explica:

“A prova anaeróbia é mais exigente, é de explosão, ali se queima tudo. Tudo pode acontecer.

A maratona é diferente, se o corredor pegar sua frequência cardíaca – a maioria não pega – e não chegar ao limite dela, a exigência fica bem mais suave. 

Ele vai fazer menos esforço físico, embora passe muito mais tempo correndo. Mas o desgaste é muito menor do que de um 10K. 

As longas distâncias exigem paciência. Mas nessas provas atinge-se um estágio em que não se pensa em mais nada. Quando o sujeito vê, faltam só 12K.”

Ele não usou a expressão, mas esse momento de “não pensar em nada” é a tal meditação ativa, conceito defendido por muita gente, como o coach Nuno Cobra Jr.

Nuninho não prescreve um receituário de longas distâncias a seus discípulos; prefere malabares, slackline e outras atividades de concentração, mas isso fica para outro momento.

 

 

 

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Douglas Gomes Da Silva.

    Boa tarde. Farei minha primeira Meia Maratona dia 09-09-2018(Meia de Vitória E/S)aos 47 anos e estou me preparando para resistir os 21km.
    Gostei da comparação entre 10km e 21km.Levarei comigo pra corrida.

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