Pedroca, o menino que sabia correr

Paulo Vieira

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O PESSOAL DE UBERLÂNDIA CONHECE BEM O PEDRO, de 11 anos, que participa de corridas em seu triciclo, empurrado pela mãe, a Karolina Cordeiro. Eu os conheci virtualmente, a partir de um elogio dela às fotos publicadas por este pasquim da mara Nilson Lima, de que participei, em abril.

Naquela época, pedi um texto para ela. Com um certo delay, semelhante aos gols do Brasil aqui na minha TV, publico agora.

O Pedro é um menino especial, o que significa ser uma criança como qualquer outra, como diz a mãe, e que adora participar das corridas – e que gerou um livro ilustrado pelo cartunista Jotah, Pedroca, o menino que sabia voar.

E a Karolina provavelmente também sabe voar. A história dela e do Pedro é contada em outro livro, Mães raras, da engenheira Désirée Novaes, que é vice-presidente da SED Brasil – Associação Brasileira de Síndrome e Ehler-Danlos e Hipermobilidade, um distúrbio do tecido conjuntivo que afeta a formação do colágeno no corpo humano.

O Pedro sofre do que a medicina chama de “doença rara”,  a síndrome de Aicardi-Goutières (SAG), e sua história pode ser melhor conhecida aqui.

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CADA CORRIDA É ÚNICA, mágica, especial.

Realmente um chamado para a vida !  E como já dizia Carlos Drummond de Andrade, “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

Sábado, véspera do Dia das mães, foi muito emocionante e especial nossa corrida no Circuito Caixa. Quando começamos a correr foi no Dia Das Mães e no Circuito Caixa, em 2012.

E em 2017 ficamos em primeiro lugar na minha categoria. Empurrando o Pedroca e a Giovana (Gigi Amora).

Mas especial mesmo foi ver a minha pequena caçulinha, a Giovana, de 7 anos, dizer:

“Mamãe, vou correr com você segurando as pernas do Pedro no triciclo.”

O triciclo do Pedro está pequeno, e ela foi segurando suas pernas para não ficarem dependuradas.

Emocionante é ver o que está além de uma foto.

É ouvir “Mamãe, não para, não para…” – e empurrar o peso da minha própria vida.

Empurrar meus filhos é  ter a vida em minhas próprias mãos.

E depois disso não paramos mais

Temos mais de 80 medalhas.

Cada respiração é única e preciosa, a cada corrida sentimos o valor da vida.

É a vitória da esperança. Ver o Pedro esticar os braços como sinal para que eu corra mais rápido que o batedor (a moto que foi nos acompanha).

A diversão da leveza, uma leveza que meu filho traz e me faz voltar a ser criança.

Não ligo para o tempo. O meu tempo sempre foi o dele.

E esta corrida foi muito emocionante porque estávamos conectados no ritmo do coração que ressoava sem parar.

Pedroca e Karolina/Foto: Arquivo Pessoal

Assim como na vida.

Viver e celebrar em meio ao caos.

Somos muito gratos à corrida.

Se não tem tênis, vai descalço mesmo.

Se não tem parque, vai na rua.

Se não tem corpo, vai com coração.

Mas vá.

Seguir em frente, nunca desistir é a única forma que meu filho encontrou para viver.

Porque se ele parasse para pensar que não pode se movimentar, se olhasse ao redor e visse só tristeza, com toda a certeza não estaria mais aqui.

Mas ele corre, e na corrida ele vê as pessoas gritando “Vai, Pedro”, “Vai, Karol”. Ele sente o vento, ele observa outras pessoas correndo e superando também suas histórias de vida.

Imagine uma nova história para sua vida e acredite nela.

Imagine que você pode ir sempre em frente, sem olhar pra trás.

Imagine que você pode ir rápido, mesmo sem se preocupar com o tempo.

Talvez aí esteja o segredo: o presente da sua entrega pode ser um pódio.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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