Ralph Tacconi em “O acompanhante”

Paulo Vieira

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SÓ A CORRIDA SALVA, diz Pizza D’angelo, mas sair para fazer um treininho ordinariamente comum pode se tornar uma atividade estressante. Que o diga nosso colaborador Ralph Tacconi, o Monstro de Curitiba, cuja carreira de maratonista velocista foi interrompida por algumas alterações no desempenho de seu coração.

Ele precisou colocar um stent, mas não demorou muito para voltar ao cascalho, contrariando a estatística – e talvez a medicina.

Ainda não faz os tiros que o enchiam de endorfina e alegria no meio da semana, mas anda esticando seu cascalho.

Outro dia no Rio rolou a fita que ele conta abaixo. Participação especial: cara que quer ser sub 4 na maratona.

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SAÍ CEDO. UM TREINO PROGRAMADO. A planilha pedia não mais que 40 minutos.

Cenário ideal para um treininho relaxante. Calçadão, orla da Praia da Barra da Tijuca, Rio.

Chovia. Bastantinho até.

Eu, naqueles treinos bem monótonos que não atam nem desatam, controlados pela frequência cardíaca. O implacável aviso do relógio dizendo para eu refrear cada acelerada.

Barulho de pés batendo em poças cada vez mais próximas, e eis que emparelha um corredor a meu lado. Daqueles que eu detesto, alegrão.

– Bom dia runner. Longão? – ele começou desse jeito.

– Bom dia. Não. Curto.

– Tô treinando pra maratona do Rio. Tá osso.

– Difícil né? – tento – tento mesmo? – não transparecer o mau humor.

– Já correu maratona? No Rio?

– Maratonas, algumas. No Rio, uma vez.

– Qual foi seu tempo aqui? – tava demorando.

– Não lembro.

Sem se importar muito com minhas respostas, ele falava dele.

– Queria fazer um sub 4. Mas tá dificil. Você já fez alguma sub 4?

– Vai fazer brother, só treinar direitinho.

– Eu li num livro que quem faz sub 4 numa maratona é considerado semiprofissional. Tô treinando pace de 5:40 pra fazer, você já fez sub 4?

– Treina pra 5:35. Mais seguro.

– Vou até o Joá. Por que seu relógio fica apitando?

Depois de dar aquela revirada de olho que só quem tem filho adolescente sabe qual é, respondo:

– São uns avisos, nada demais.

Antes de fazer a próxima pergunta do Enem do longão, algo inesperado acontece.

Um celular toca de dentro de sua mochila. Ah, não contei né, ele estava todo apetrechado. Além da mochila, meião até o joelho e umas pulseiras estranhas.

– Oi, que que foi? – atendeu aos berros.

Alguém diz algo do outro lado.

– Eu não disse que está atrás do armário da sala? Eu não falei que ia pro longão?

Ouve outra coisa que não gosta.

– Não acredito. Você tá de sacanagem comigo – imagine isso naquele sotaque carioca de duas gemas.

Desliga o celular, puto da vida.

– Vou precisar voltar, parceiro. Vou ter que resolver uma situação aê. Foi bom falar contigo.

Eu, sem quase ter dado palavra alguma, passo a ter uma dívida de amor eterno pelo sujeito do outro lado da linha.

Seja lá quem você for, muito obrigado por tudo.

LONGÃO, A HISTÓRIA POR TRÁS

ANTES SÓ DO QUE ACOMPANHADO?

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

2 Comentários

  1. Camila

    RIndo litros !! hahahahaha

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  2. Cristina

    Kkkkkk tbm nao curto treinar juntos, e muito menos me rasgar pra acompanhar os amigos que correm no pace menor que o meu ,correr pra mim e paz ,é prazer,é falar sozinho é cantar é agradecer, e depois que descobri que posso terminar uma maratona ninguem me segura mas ,to voando no meu pace 6,7 kkkkk ,bjs amigo seus texto são maravilhoso.

    Responder

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