Do Pontal pra lá do Leme: recuerdos de uma mara do Rio

Paulo Vieira

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A MARATONA MAIS FAMOSA DO BRASIL tem sido disputada no domingo que fecha o feriadão de Corpus Christi. Ano passado caiu em 18 de junho – mesmo dia de um Fla x Flu em que o Fla empatou aos 50 do segundo tempo.

Em 2018 o feriado correu para a frente. Corpus Christi é já nesta quinta, e, assim, no próximo domingo, tem mara do Rio de novo – mas o clássico ficou para o sábado, entre o combalido Vascão e o Fogo.

O Fla joga no Maraca domingo com um time xis qualquer.

Corri aquela mara de 2017 e depois encarei o metrô lotado junto com algumas centenas de torcedores que iam ao Maracanã. Aliás, seria de se esperar que o metrô levasse os corredores até pelo menos a Barra – de lá a gente dava um jeito de chegar àquele fim de mundo do Recreio, onde é a largada.

Mas o metrô aos domingos no Rio só funciona a partir das 7 da manhã. Tem boi pra maratonista não.

Brazil, zil, zil.

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ESPECIAL MARA DO RIO 2017 – DURA LEX, SED LEX

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ESPECIAL MARA DO RIO 2017 – A PROVA COMEÇOU NO SÁBADO, NO PASSO TARTARUGA NINJA DE CARLOS DIAS

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RALPH: SOFRENDO EM LOOP EM SOROCABA

Mas falei demais. Quem pede passagem para escrever sobre a mara do Rio é Ralph Tacconi, o Monstro de Curitiba, que correu a dita cuja há dois anos, avariado por um dengue contraída poucas semanas antes.

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SEI QUE SEMPRE HOUVE UMA BIRRINHA BOBA entre paulistas e cariocas. Nunca da minha parte.

O Rio começou a fazer parte da minha vida tão logo virei adulto.

Tenho dois filhos que nasceram e moram lá. Acho a cidade linda e, sempre que posso, dou o ar da graça por lá.

Depois que comecei a correr, a paixão aumentou. Correr no Rio é diferente de qualquer outro lugar do Brasil. Sinto um astral e uma energia muito boa naquelas terras.

É claro que eu tinha de correr uma maratona lá.

Em 2016, a prova era em maio. Estava preocupado com o calor e tentei colocar os treinos mais longos dentro de horários nos quais a temperatura apertava. Saía às vezes 11 da manhã para me aclimatar e tentar sofrer menos na prova.

Treinei direitinho. Tudo como manda a cartilha. O último longão saiu tão bem encaixado que cheguei a pensar em RP [nota do editor: recorde pessoal], por que não?

A prova era pelo meio do mês, e quando ele chegou, comecei a me sentir meio mal, indisposto. O desconforto incomodou a ponto de me fazer procurar o PS mais próximo.

Chegando lá, colhi sangue e tomei uma benzetacil.

Infecção de garganta, suspeitava-se. O exame ficaria pronto no fim do dia.

Voltei lá ainda desconfortável.

Infecção de garganta? Pois sim.

Seis letrinhas. Começa com d, termina com e.

Faltando pouco menos de 20 dias para a prova, aquela notícia era um pesadelo. Custava a acreditar que um mosquito havia acabado com minha chance de recorde.

E você sabe, né? Os sintomas da dengue são horríveis, mal dá para se mexer, o corpo dói muito. Foram duas semanas de molho, na cama.

Na semana da prova já me sentia melhor, e resolvi dar uns trotes para ver como estava. Depois do primeiro percebi que, caso resolvesse ir, seria só pra completar a maratona mesmo.

Era muito ruim tentar forçar algo naquelas condições.Aquele papo de RP ficaria pra próxima.

Aceitei e decidi correr.

Cheguei ao Rio na manhã de sábado. Um hostel em Botafogo, cerca de 3K da chegada da prova. No mesmo local de onde sai um ônibus que leva até a largada. Isso é outra coisa legal de correr no Rio. A prova é do ponto A ao ponto B. Nao tem loop.

Era tardezinha, e depois de ver o Real Madrid ganhar outra Liga dos Campeões da Europa, fui caminhando até o local da chegada, no Aterro. As assessorias já organizavam suas tendas, e reparei numa em especial, vermelha.

Tive uma ideia: liguei pro Cadu, meu filho mais velho, e descrevi em detalhes a tal barraca.

Disse-lhe para ir me ver chegando daquela tenda e se possível levar o Matheus (o caçula, 10 anos recém-completados). Como eles moravam bem longe dali, não botei muita fé que aparecessem.

Voltei ao hostel e fui tentar relaxar um pouco no quarto. Era compartilhado, tinha uns cinco beliches, por aí.

Estava sozinho quando entra alguém. Uma moça de não mais de 30 anos, talvez. Segurava um rádio na mão e um cigarro aceso na outra.

Era Julieta, uma argentina de Mendoza que estava no Rio há uma semana para curar uma desilusão amorosa. Segundo ela, sua companheira de anos, Margô, terminara a relação inesperadamente.

Falava bastante enquanto trocava de roupa. Disse que sempre vinha ao Brasil, muito a Salvador, mas ao Rio era a primeira vez.

Aquela mulher seminua na minha frente, fumando e contando toda a sua vida enquanto Janis cantava Bobby McGee fez com que eu, em devaneio momentâneo, pensasse: “Caralho, maratona nada, eu tô em Woodstock.”

Depois de trocada, Julieta saiu. Chegou de madrugada, acompanhada de amigos, todos alegres e falando a língua dela. Embriagados, talvez. Me acordaram, mas isso não me incomodou.

Até gostei. De uma certa forma, tinha adquirido afeto por ela. Me agradou vê-la feliz.

Não sei que fim levou, mas consegui pegar no sono novamente.

Chegou o dia. Peguei o ônibus que levava até o Recreio dos Bandeirantes. A largada fica na praça que leva o nome daquele que imortalizou a orla carioca na canção Do Leme ao Pontal.

Mas a prova, se sai do Pontal, vai um pouco além do Leme.

Largamos. A temperatura estava boa, mas eu não me sentia muito à vontade. Era de esperar. A dengue havia deixado marcas.

Confesso que a primeira parte da prova não agrada muito. Fica-se por quilômetros na reserva do Recreio. É monótona, só o mar ao lado e mais nada até chegar à Barra da Tijuca, onde as coisas melhoram um pouco.

Mas só vai ficar bom mesmo mais para a frente. Na Zona Sul é que você realmente começa a curtir a prova. O carioca indo à praia, as senhoras com suas cadeiras no calçadão. O cartão postal brasileiro mostra sua verdadeira identidade. Leblon, Ipanema, Copacabana.

Pai e filho no final da mara do Rio de 2016

Na Princesinha do Mar, começo a correr ao lado de um senhor. Ele conta histórias sobre a origem dos nomes dos bairros, fala do Cais do Valongo e até da própria maratona. Se estivesse pensando em tempo e ritmo, talvez eu nem o houvesse ouvido. Mas como estava de boa, sem pretensão nenhuma, o papo estava uma delícia.

Cheguei ao Aterro, o sol não chegava a apertar tanto e eu me sentia bem. A praia do Flamengo indicava que a maratona estava por acabar

Começo a ver as tendas. Muitas delas vermelhas com as mesmas descrições que havia passado ao Cadu. Na cerca, muita gente. Seria impossível encontrar alguém.

Mais um pouco, ouço um berro: “Paiiiiiiii!!!!”

Procuro na multidão, e ouço novamente o mesmo grito.

Era Cadu. Saio do traçado, vou até ele, e puxo o Matheus por cima da grade. TInha um segurança, mas se ele em algum momento pensou em intervir, desistiu quando notou a comoção que aquele gesto causou nas pessoas próximas.

Aqueles aplausos e gritos certamente entraram para sempre em minha memória.

Voltamos para a pista, Matheus e eu. Ele, eufórico, deu um pique que eu, depois de 42K, não consegui acompanhar.

Pedi que diminuísse e, de mãos dadas, cruzamos a linha de chegada.

Todo o pós-prova foi dele. Medalhas, kits e colo que papai liberou. Passamos o dia juntos. Foi inesquecível.

O tempo? 3:57. O que importava?

Terminar uma maratona já é uma experiência fantástica. Mas, terminar de mãos dadas com um filho, difícil explicar.

Pretendo voltar ao Rio para fazer a maratona em condições ideais. Mas estou certo de que o final nunca mais será o mesmo.

Pode ser que comemore um RP, mas aquela emoção que o Matheus me proporcionou, jamé!

Duvido que o Bolt tenha vivido 100 metros tão intensos como eu naquele dia.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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