Quanto mais ciclorrota, pior?

Paulo Vieira

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AO LADO DE MINHA FILHA e de dois amigos da classe dela, a Laura e o Diego, pedalei ontem por cerca de 20K por Sampa. Um verdadeiro prodígio para as muito jovens meninas do grupo, pouco afeitas à distância e, mais do que isso, à livre circulação pela cidade.

Era um caminho bastante conhecido, especialmente aos domingos, quando várias avenidas da cidade têm faixas interditadas para usufruto dos ciclistas — e eventualmente dos skatistas, corredores etc.

Saímos do parque Vibra-Bollos e fomos ao Ibira sempre pelas “ciclorrotas” montadas só aos domingos. Ou seja, Pedroso-Faria Lima-toda-vida-Hélio Peregrino.

Foi duka, mesmo com a água de coco a 9 pratas na Faria Lima e o hambúrguer vegetariano hipster no Vinil ao final do passeio que eu nem sei quanto custou.

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Quanto mais gente nas ruas, melhor, mas surgiu em minha mente uma questão que suponho pertinente — e que certamente já foi discutido nos foros dos cicloativistas: ciclorrota inibe ou fomenta o uso da bicicleta como “modal”?

É que me deu a impressão que, ao liberar os domingos para o pedal, as autoridades de trânsito e os motoristas pagam o “dízimo” que imaginam moralmente adequado. E então voltam a dominar com tudo as ruas nos dias úteis.

Dessa forma eles têm um argumento para não aumentar a presença das bikes nas ruas nos dias úteis, que é quando realmente precisamos da bicicleta cumprindo seu papel no sistema de transporte.

Com isso, babau ciclovias.

Como se sabe, entre 2013 e 2016 São Paulo teve enorme incremento cicloviário, com construção de cerca de 400K de ciclovias. Nessa época gloriosa as bikes passaram a ter mais segurança (ou menor risco) para circular no trânsito de segunda a segunda.

Para usar uma palavra simpática com a gestão atual, que sustou esse avanço, houve “refluxo” na criação de ciclovias,  com 0K — zero quilômetro — criado.

Pior, os amiguinhos na Câmara municipal conseguiram aprovar a absurda Lei da Demanda, veja no primeiro link abaixo, que praticamente liquida a possibilidade de expansão cicloviária.

O RETROCESSO DA POLÍTICA CICLOVIÁRIA DE SP

QUEM PEDALA É MAIS FELIZ, DIZ PESQUISA

A BIKE COMO TERAPIA

PAULO SALDIVA: A CIDADE ESTÁ OBESA

LARANJA X VERMELHA: TESTAMOS OS SISTEMAS DE BIKE COMPARTILHADA

TEU CARRO: TRÊS CIGARROS POR DIA PARA OS NOSSOS PULMÕES

A CORRIDA DO PIKO, A MAIS PROUSTIANA DAS MINHAS CORRIDAS

É uma pena. Ver minha filha e seus amigos circulando sem mais aquela pela cidade, como minha geração fazia quando tinha sua idade, é algo muito desejável.

Mas a pena mesmo é porque é APENAS desejável: está no plano do wishful thinking, quase do pensamento mágico.

Domingo dá para ela sair por aí de bike, mas olhe lá. Fazer como nós da ZO fazíamos, cruzando ruas e estradas com nossas Sprint 10 para ganhar o Piko do Jaraguá, é fora de questão para os moleques adolescentes e pré-adolescentes como ela.

Aquilo para a gente era um pouco como um ritual de passagem. Hoje o Piko possível talvez seja o encontro dos meninos, sem os pais, no shopping.

Voltando à questão estrita da mobilidade, não custa lembrar que as ruas não são exclusivas dos carros e, por mais que os motoristas sejam abundantes neste país, quem não tem Renavam também tem direito à rua.

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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