A lição de corrida de Caetano Veloso

Paulo Vieira

NOS DOIS MESES TENEBROSOS EM QUE ESTEVE preso no Rio, de dezembro de 1969 a fevereiro de 1970, Caetano Veloso desenvolveu um sistema de suposições e adivinhações.

Graças ao sistema ele diz ter antevisto em detalhe o exato momento de sua soltura.

Não era fácil saber esse momento, pois tanto ele como Gilberto Gil, que foram presos na mesma ocasião em São Paulo, passaram por alguns quartéis e ouviram de diversos militares, que se revezavam confusamente nas chefias dos cárceres, explicações e promessas que jamais eram cumpridas.

O sistema do compositor passava pela aparição de baratas na cela (mau agouro), morte de baratas sendo ele o matador (bom agouro), canções assobiadas ou cantadas pelos guardas (bom e mau agouro), determinadas dessas canções ouvidas exatamente no momento em que Caetano estivesse fora da cela a observar a estrada defronte ao quartel (excelente agouro).

Ele explica em detalhe no capítulo “Narciso em férias” do seu livro Verdade Tropical – a versão original, de 1997.

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Escusado dizer que a acusação que era imputada aos dois, de ofensa ao hino e à bandeira brasileiros, além de ridícula, era fictícia.

Mas naquele tempo do Ato Institucional 5, o infame AI-5, acusações ridículas, fictícias e injustas poderiam levar à morte – a fama dos baianos certamente os ajudou a ter melhor destino.

E há gente que pede a volta do regime militar.

O sistema de adivinhações de Caetano me lembrou um pouco o que fazem alguns corredores – editor deste pasquim incluído – que em corridas, provas ou não, começam a enxergar em cada palmeira da estrada, quero dizer, em cada ponto do cascalho presságios do que virá à frente.

Que podem ser situações boas ou ruins e que podem também servir de estímulo para que sigamos correndo mais alguns metros ou quilômetros. Correndo em praias desertas por diversas vezes escolhi árvores ou construções distantes como pontos de retorno, e, ao chegar nelas, achei que valia seguir um pouco mais.

O que falo pode não fazer qualquer sentido para quem corre com um mísero relógio – que dizer de um app que usa geolocalização –, pois o sujeito certamente determinará seu destino pelo tempo ou pela distância.

Ou seja, terá o destino sob controle, decidido previamente, sem dar chances ao porvir.

Se não estivesse preso é possível que Caetano não inventasse seu sistema de adivinhação que em algum momento do livro compara ao I Ching. Da mesma forma, reconheço, um corredor sem relógio ou celular pode não viver experiências mais luminosas por estar livre desses apetrechos.

O único dado objetivo a acrescentar é que sem nada no bolso ou nas mãos – e mesmo nos pés – não há o que deixar na areia na hora do mergulho redentor.

 

 

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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