O quilômetro em que a onça pede água

Paulo Vieira

A MARATONA É UMA PROVA QUE PODE SER irritantemente longa para muitos maratonistas, sejam eles novatos ou experientes. Em dado momento, o cabra olha para aquela placa e fala “Tudo isso ainda?!?”

Não me refiro ao 32K-35K do “muro”, a hora em que supostamente toda a reserva energética do nosso corpo se esvai. Penso na hora da fadiga mental, em que seguir correndo por mais aqueles 16, 14, 12K parece uma ideia que beira o surrealismo.

MARIO SERGIO SILVA E O MURO DO 32K-35K

GINÁSTICA PARA A CABEÇA

É A CABEÇA, ESTÚPIDO

A MARATONA DE HAWKE’S BAY: A PRIMEIRA QUEBRA A GENTE NÃO ESQUECE

A MARATONA DO RIO: DURA LEX, SED LEX

MINHA PRIMEIRA MARATONA: VIVACE

MINHA SEGUNDA MARATONA EM PÍLULAS

MARATONA, O FETICHE

NA HORA DA CÂIMBRA

SÉRGIO XAVIER CHEGA A BOSTON

SÍNDROME DA LINHA DE CHEGADA

Não enfrentei essa pane mental nas minhas duas primeiras maratonas, ambas em Essepê, mas fui dar com isso em Hawke’s Bay, no confim da Nova Zelândia, na maratona do frio.

A parada voltou a acontecer em junho, na mara do Rio.

Sérgio Xavier, vulgo Treinador, uma dúzia de maratonas nas costas, confirmou ao JQC que de fato existe essa hora em que o maratonista diz “Tudo isso ainda!?!” Pelo Twitter, cravou:

“Oh, se existe. Mas [esse km] é móvel. Já peguei no 25K, 35K, depende. Em Boston [sua última mara, corrida em abril] vi no 15K que ia demorar. Em Porto Alegre, no 22K. Em outras, esperei e não veio.”

Para ele, contudo, não é só a cabeça.

“Tem uma mistura aí. Fôlego + músculo + cabeça. Os percentuais do que vai influir mais dependem do indivíduo e da fase. Há uma tendência em achar que a cabeça resolve tudo. Não acho que seja assim. Se você não tiver musculatura pra obedecer a cabeça, não tem jeito.”

****************

Comigo a parada tem sido sempre mental. Prova-o o fato de não sentir câimbras ou outras dores musculares ao longo das competições.

Na Nova Zelândia, o sistema de placas indicativas dos quilômetros vencidos poderia ser estimulante para uns, mas para mim era deprimente: ele marcava o quanto faltava. “16 to go”,  “13 to go”, e assim sucessivamente.

Não escrevi o “16K to go” aleatoriamente – foi ali mesmo que “quebrei”.

Depois dele passei a caminhar por algumas seções – dos 42K de corrida, uns 3K foram de caminhada, calculo.

O mesmo aconteceu no Rio. Aproveitava os postos de hidratação para “roubar” um pouco da corrida. A primeira vez que isso aconteceu foi no Leblon, lá pelo 32K, mas caminhei também por uma boa centena de metros em Copacabana logo depois da mexerica quente.

Lembro de conversar com um espectador que queria saber quantos quilômetros faltava.

“Uns sete”, respondi.

“Tá fácil, então, já passou o muro.”

De fato, meus últimos cinco quilômetros foram de corrida, mas os 300 metros finais – ouvi alguém na torcida dizer que só faltavam 300 metros – foram longuíssimos, exasperadores, como se estar diante daquela gente toda me proibisse de baixar o ritmo.

Era a Síndrome da Linha de Chegada que atacava com força.

PS – Não sou de me comover com essas efemérides que existem aos montes a celebrar categorias profissionais e assemelhados, mas abro uma exceção para o dia do maratonista.

Quer dizer, mais ou menos, já que o link que vai abaixo é um tanto requentadinho. De toda forma, parabéns a todos nós, corredores dos 42K e de quaisquer outras distâncias.

HOMENAGEM AO DIA DO MARATONISTA

 

 

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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