O inferno na corrida são os outros

Paulo Vieira

PASSOS DIAS AGUIAR é o nome do velho taxista, arcadas dentárias amareladas pelo hábito rotineiro de mascar fumo e de tomar café coado excessivamente doce.

Nos poucos momentos em que não se dedica à atividade mecânica de passar a marcha ou carregar na buzina, e até mesmo nessas horas, pensando bem, aproveita para praguejar contra os “novos tempos” e seus protagonistas, ora efeminados, ora vagabundos, quando não os dois atributos em simultâneo.

Aguiar tem uma sobrinha idealista, loquaz, preocupada com o avanço conservador nas câmaras e assembleias, obviamente a discrepar do ideário algo Lapa de Baixo da família. “A juventude está perdida”, rumina o tio, e parece mesmo que já vemos o balãozinho que lhe vai atado ao cartum.

O narrador deixou a pena passear nesses dois parágrafos extravagantes apenas para ilustrar, diz-me ele, quão arquetípica pode ser a visão do – ele exige aspas – “outro”.

O FELIPÃO FALSO E O VELHO JORNALISTA

SERRA DO RIO DO RASTRO, O FETICHE

PARE DE USAR PLANILHA

MARATONA, O FETICHE

CUNHA & BOLAÑO

O DEMOLIDOR DOS MITOS DA CORRIDA

QUERO FICAR NO TEU CORPO FEITO TATUAGEM

PIPOCA, A EXPERIÊNCIA

DO QUE FALO QUANDO NÃO FALO COM MURAKAMI

FORÇA, FOCO E FÉ, A FALÁCIA DOS TRÊS EFES

E o inferno mesmo são esses. Na corrida, o outro pode se transmutar em personagens distintos: no pipoca, digno da pena capital por ousar subtrair a água tão arduamente adquirida pelo cidadão zeloso; no velocista, sempre  a chacoalhar sua inseparável mamadeira de whey; no arroz-de-festa, a ridícula touca encarnada a postos à cabeça; na senhora patusca, digna de dó ou desprezo, você escolhe, por ser apenas quem é.

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Passo os dias a pregar neste pasquim que a corrida tem uma dimensão que não tenho pejo de chamar libertária. Envolve carradas de prazer. Envolve um encontro solitário e generoso consigo mesmo.

Eles te representam
Eles te representam

Rogo que o escasso leitor que por aqui se extravia experimente livrar-se da imposição fetichista de que é necessário participar de provas; de que é necessário, como diz o Balu, tatuar à coxa o tempo e o local de sua primeira e única maratona para então desfilar a horrenda excrescência por aí.

Fetiche de fetiches, tudo é fetiche.

Nem todos percebem que sentem prazer ao correr: estão preocupados demais em seguir os ditames do excel que, qual o Novo Maratonista, levam no bolsilho do calção em três vias de igual teor, margens e tabulação escrupulosamente ajustadas.

Proponho que o corredor que vai por estes pixels tire férias dos “objetivos”. Que esqueça a conversa fiada dos três efes (link acima). Que exploda a distinção entre prova e a isso que chamam de treino.

Que o faça por pouco tempo caso se sinta inseguro. Quero crer que o “resultado”, essa palavra tão useira e vezeira em se imiscuir pela cachola tatibitate de toda gente, aparecerá.

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Posto isto, gostaria de dizer que me vendi bonito ao fetiche: subo os 42K gloriosos que separam (ou juntam, como faz o São Francisco entre Juazeiro e Petrolina) Treviso de Bom Jardim da Serra, 25K de serra do Rio do Rastro no entretanto.

Se conseguir terminar a famosa prova catarinense em setembro, tatuarei ato contínuo o emblema do Desafio Uphill na coxa. E ganharei o cascalho no dia seguinte com um short tão cavado quanto aqueles usados na laje do Realengo.

 

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

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