O demolidor dos mitos da corrida

Paulo Vieira

A MODÉSTIA É CAPAZ  de transformar um tolo em um homem de bom senso, diz Swift, mas a falsa modéstia, lembremos, pode ser pior que a arrogância.

Não é de modéstia definitivamente que se serve o educador físico formado pela USP Danilo Balu, autor do livro O Treinador Clandestino, recém-lançado em edição impressa. Você pode comprá-lo aqui.

Balu mantém o blog Recorrido, “o mais pertinente sobre corrida no país”, na definição que, segundo ele, vai publicada no livro. No Recorrido, o autor faz principalmente uma notável curadoria de reportagens e textos sobre corrida e nutrição.

Batem cartão ali o treinador e pesquisador Steve Magness (“pensa fora da caixa”), que mantém o blog The Science of Running, Alex Hutchinson, que escreve para a Runner’s World americana, o pesquisador sul-africano Tim Noakes, entre muitos outros autores.

Mas vamos logo ao que nos traz aqui: em O Treinador Clandestino, livro que conta também com a colaboração dos fisioterapeutas Raquel Castanharo e Alexandre Dias Lopes, Balu exibe sem miséria estudos científicos que desmontam alguns mitos da corrida.

Apanham feio a necessidade de hidratação constante, o risco de se jejuar antes de praticar atividade física, o tênis com amortecimento, o alongamento após o treino e o protagonismo da corrida na perda de peso.

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Logo no prólogo, Balu avisa ao leitor que ele não encontrará ali planos de treinamento nem “promessas” de que “ficará mais forte ou mais resistente”.

“Queremos apresentar o que dizem as conclusões de alguns estudos bem pertinentes para que você, munido da informação, decida o que é útil, o que não é e o que cada coisa pode de verdade influenciar na sua corrida.”

Clandestino
Clandestino

Se o espinhoso campo da ciência do esporte só pode ser conhecido por via indireta, por seus reflexos, tal como o conhecimento de Deus para o tomismo, as desconstruções de Balu podem equivaler a um pequeno Novo Testamento da Corrida.

(Que se debite esta extravagante ilação da cachola do editor deste pasquim, a modéstia de Balu o impediria de ir tão longe.)

JQC entrevistou o autor. Segue a primeira parte da entrevista – a segunda vai oportunamente. Grifos por conta do entrevistado.

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JORNALISTAS QUE CORREM – No prólogo, você anuncia que o livro não conterá “planos de treinamento nem promessas de ficar mais forte ou mais resistente”, mas conclusões de “estudos bem pertinentes”. Mas como faz quando você tem de tomar uma decisão sobre treinamento? Digo isso pois as conclusões pertinentes permitem, talvez, que sejam afastadas algumas variáveis, mas não facultam a construção de um “todo”, um sistema completo de treinamento. Há outras conclusões seguras a acrescentar para construir esse todo? 

DANILO BALU – A resposta não é fácil… A história do treinamento esportivo nos ensina que é tudo muito empírico, na base da tentativa e erro, vamos vendo que a ciência pouco ajudou nos grandes avanços ou saltos de desempenho. Nós vamos com a experiência, e só depois baseado em estudos controlados, aprendendo aquilo que não funciona e o por que algo funciona.

Quando você aprende por estudos controlados que alongar, por exemplo, pouco evita as lesões na corrida, você pode se debruçar e voltar suas energias para tentar descobrir também por tentativa e erro aquilo que realmente vai te ajudar. Um bom profissional consegue te falar aquilo que não funciona. Foi muito baseada nessa premissa que o livro foi escrito. Uma fórmula única não existe.

JQC – Na mesma toada. Passou-se do treino LSD (Long Slow Distance) para o treino de qualidade/variação de ritmo, e hoje não fazer intervalados, por exemplo, parece uma verdadeiro sandice. A tal diferença que alguns treinadores falam entre “rodar” e “correr”. A ciência e a medicina exigem padrões, “verdades” ainda que provisórias, mas em educação física (e nutrição também, creio) as respostas múltiplas dos alunos não anulam ou ao menos dificultam a existência desses padrões? É possível haver padrões e aplicá-los a grupos numerosos em educação física?

BALU – Na verdade há alguns equívocos históricos sobre um suposto pêndulo radical entre o Long Slow Distance e os intervalados ao longo das décadas. Intervalados são feitos desde antes de Paavo Nurmi, nos primeiros Jogos Olímpicos da idade moderna. O LSD como o conhecemos hoje surgiu na metade do século passado e incluía em muitos momentos a entrada de estímulos bem intensos (o intervalado). Infelizmente seu maior ícone, Arthur Lydiard, ficou mais conhecido como alguém que só mandava rodar lento, o que é uma leitura errada de sua obra. Ele pregava intensidades pessoais que poucos de nós aguentariam. Está tudo bem documentado!

Eu disse tudo isso para lembrar que o esporte de alto nível não deixa de ser uma história contada pelos sobreviventes. Os que não aguentam as enormes cargas, ou não respondem bem a elas, não ficam com os microfones para contar sua versão da metodologia. Mas dá para tirar muita coisa pertinente analisando apenas o que fizeram os bem-sucedidos.

Mas temos que ter sempre em mente que as diretrizes na medicina, saúde e treinamento são voltadas para populações, não para indivíduos. Se você aplicar o que manda um bom treinador, uma grande maioria terá resultados bons ou ótimos, já uma minoria patinará ou mesmo irá ficar pior. A mesma dose de um remédio aplicada a um grupo pode curar, ser placebo, inócuo ou veneno. A arte é descobrir a dose que irá mais curar e depois saber como ir ajustando de modo fino àqueles que não responderam bem.

JQC – Você acredita que o “cânone” do treinamento de corrida atual, pró-qualidade/quebra da homeostase, pode cair em algum momento?

BALU – A quebra da homeostase é essencial. Sem ela a atividade física perde muito em qualidade. Sendo mais prático: você não pode sugerir que alguém pratique ad eternum o mesmo estímulo. O desafio é de onde tirar mais qualidade quebrando a homeostase, mas não machucando.

JQC – Para fechar esse tema que está filosófico além da conta. Falando sobre alongamento numa entrevista a este site, Mario Sergio Silva, da Run & Fun, maior assessoria esportiva do Brasil, disse: “Minha experiência de 23 anos permite ver o que vem dando certo e aplicar. A bibliografia diz que alongamento não previne lesões, mas sei que é legal alongar”. Ele não tem um ponto aqui? As respostas empíricas que recebe não lhe dão algum conhecimento de causa, uma auctoritas tão válida quanto a bibliografia?

BALU – Você já cortou o cabelo no rede Soho? A última vez que fui lá, mais de 20 anos atrás, eles faziam uma massagem na sua nuca após o corte. Atualmente corto em um salão tipo sujinho que o cara também me massageia. Eu poderia mentir para mim mesmo e te dizer que isso e o fato de ele me tratar com atenção não pesam na minha decisão de cortar lá há dez anos.

Eu gosto muito do Mario Sergio, e até onde sei a recíproca é verdadeira, mas o “acho” assim solto não explica nem garante absolutamente nada. A gente precisa sempre entender que a assessoria esportiva no Brasil não vende treinamento de corrida no sentido técnico da palavra. Ela vende principalmente carinho e atenção. Tecnicamente falando, treinar amador é fácil demais!

O alongamento é um momento em que você pode oferecer mais um pouco daquilo que o cliente mais quer: carinho e atenção.

Eu acompanhei por toda uma temporada atletas olímpicos do atletismo. Sabe quantos alongavam? Você imagina a resposta. Em agosto passado acompanhei por um mês alguns dos melhores nadadores do mundo antes de embarcarem para os Jogos do Rio. Sabe quantos alongavam? Pois é. Ou você deduz que o alongamento nas assessorias é resultado de um desejo dos clientes (e não dos treinadores) ou então você acredita que os amadores precisam de algo especial que nem mesmo alguns dos melhores atletas do mundo necessitam.

JQC – A franquia “clandestino” de seus dois livros é apenas uma assinatura identificadora, um marketing que lhe ajuda de alguma forma ou você se sente realmente excluído do cenário da nutrição esportiva e treinamento de corrida no Brasil?

BALU – Hahaha definitivamente não! Não escrevo mais em veículos porque não me interessa, pois não tenho tempo para produzir algo interessante na frequência que querem… E dou treino só aos insistentes mesmo… O nome do primeiro livro, O Nutricionista Clandestino, surgiu como homenagem a um dos meus autores preferidos, Tim Harford, que escreveu O Economista Clandestino. Homenagem mesmo! E como não sou filiado nem ao Conselho de Educação Física (CREF), nem aos de Nutrição (CREF e CFN) e nem a nenhum desses órgãos-abutres, o nome do livro caiu bem na ocasião. E o uso no segundo livro veio por consequência mesmo. Só isso.

LEIA A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA DE DANILO BALU AO JQC

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

1 Comentário

  1. Messias Martins

    Engraçado como para o brasileiro, fala a verdade, dissonante da maioria, é ser arrogante. O Balú faz aquilo que faço com os meus clientes. Repasso informação de qualidade aos clientes. E eles tiram suas decisões. Sem manipulação. O mundo e principalmente o brasileiro seriam melhor, se a maioria fossem assim. O Balú, não comunga com o mercado negro da força. E isso é bom!

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