Ultramaratonista Fabio Tchê: “O que fazemos não tem nada de bom para a saúde.”

Paulo Vieira

FABIO TCHÊ É MAIS UM QUE SE deixou seduzir pela quilometragem extravagante de mais de 80K das ultramaratonas. Educador físico radicado em Curitiba, ele começou a correr em 1999 por “acordar muito cedo e ter tempo livre”.

Daqueles 20 minutos muito sofridos à primeira maratona, a de Curitiba (“com o prefeito Taniguchi dando a largada de cima de um caminhão”), foram só dois anos. E mais quatro para encarar uma prova de 84K.

Tchê está aqui hoje para mostrar que não é só de sucessos que se faz um ultramaratonista. Muito pelo contrário. Há poucos dias participou da Extremo Sul Marathon, em que se corre 223K num limite máximo de 56 horas, sempre pela praia, do Rio Grande ao Chuí.

Como ensina Don Juan, é preciso achar o “ponto” para acomodar-se no chão duro. De maneira análoga, é preciso achar um ponto, um ritmo, para enfrentar o cascalho sem fim. Mas mesmo assim o cenário imutável do litoral sul gaúcho não é para qualquer um, ponto vindo ou não.

Tchê não conseguiu terminar esse desafio assim como não conseguiu terminar (se você não gosta de repetição de termos numa frase substitua por “logrou concluir”) uma prova de 217K, a BR 135, em 2007. E ele não se incomoda de dizê-lo.

Ele parece ter raro senso crítico da própria atividade. “Sei que é preciso muito mais que vontade ou espírito guerreiro para poder encarar distâncias como estas de forma a terem o menor impacto negativo em nossa saúde, digo o menor, pois o que fazemos não tem nada de bom para a saúde, extrapola qualquer recomendação médica até aqui estudada.”

Como diria um velho jornalista que quer se renovar: palmas.

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Veja a entrevista que o JQC fez por e-mail com Tchê.

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JQC – Você já havia feito essa Sul Extremo? Por que decidiu corrê-la?

Tchê – Eu não a havia feito ainda, mas tinha muita vontade por ser na minha cidade natal e por ser onde eu terminei meu projeto KM Social (corri 1 100K em 21 dias para arrecadar fundos para o paradesporto, no começo do ano). Desde então meu pé ficou com sequelas de uma lesão, comprometendo minha rotina de treinos.

JQC – No relato em seu blog, você diz que há competidores que acabam não tomando decisões conscientes durante o desafio. Por que isso acontece? Como fazer para tomar decisões conscientes?

Tchê – O organismo funciona com energia, que é o glicogênio, e o cérebro somente funciona perfeitamente se houver esse substrato. Em atividades extenuantes a energia fica quase nula, fazendo nosso raciocínio entrar em estado de economia. A gente vê um  grupo de pessoas na beira da praia e para para perguntar se é ali a base de apoio. É como se voltássemos a ter 4 anos de idade.

JQC – Qual a razão de encarar um desafio desses?

Tchê – A pergunta já tem a palavra DESAFIO. Simplesmente querer sentir o quanto é possível se superar e ter uma sensação de prazer que somente quem está lá pode descrever.

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JQC – Como é a recuperação após um esforço desse tamanho? Como são os primeiros quinze dias?

Tchê – Se eu tivesse ido até o final, seriam de quatro a cinco dias sem qualquer esforço, me hidratando muito e me alimentando. A regeneração muscular consome muita energia. Depois disso massagem e atividades como correr na piscina, nadar, pedalar leve. Ou passear, para movimentar o corpo e ajudá-lo a se livrar da acidez produzida com o esforço. Treino mesmo só um mês depois. A recuperação total pode levar até 3 meses.

JQC – É possível ter vida normal e ser ultramaratonista, como tem vida normal um maratonista? Dá para beber? Sair de vez em quando? Não usar suplementação?

Tchê – Para quem faz isso por hobby, que é a maioria, já que não rola dinheiro nesses desafios, pode-se ter uma vida muito normal, se é que correr 8 a 10 horas no final de semana é normal hahaha. Mas sim, pode beber e comer churrasco, mas não todo fim de semana. Tudo depende do ciclo de treinos. A corrida é boa por isso, pode-se viver junto com ela, ela te deixa com saúde para a vida.

JQC – O que você costuma dizer a quem o procura disposto a virar ultra? Chega a convencê-lo do contrário? Qual a condição ou característica do candidato para dar certo?

Tchê – A ultra vem naturalmente, o que acontece é que transformam quem faz essa distância numa  superpessoa, e isso é bobagem, tudo na vida é treino, ficar no sinaleiro [farol, em paulistês] equilibrando bolinhas e limões e fazendo acrobacias é difícil, mas com treino dá. Para chegar a correr provas acima de 80K é preciso anos de treino, pois as adaptações do organismo demoram. E não se pode banalizar a prova, e os organizadores vêm colocando tempos de desclassificação muito longos, o que traz pessoas despreparadas ao evento. Digo sempre que ultramaratona não tem a ver com saúde. A maratona até sim, se for bem orientada e no máximo duas por ano.

JQC – Fique à vontade para outros comentários.

Tchê – O que fica das provas longas como essa Extremo Sul é a união entre as pessoas que não se conhecem e o sentimento de carinho que demonstram.

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Paulo Vieira

Paulo Vieira corre pelas ruas de São Paulo desde os 15 anos e pelo mundo desde os 32, quando passou uma temporada em Londres. Adora correr em estradas rurais, descobrir novos caminhos e ir e voltar do Pico do Jaraguá. Mas agora anda frequentando também treinos no Parque Villa-Lobos às 7 da manhã com seu tênis minimalista - desde que a Lusa não jogue na véspera.

2 Comentários

  1. Marco Pereira

    Aprendi muita coisa de corrida com o técnico Fábio Tchê, uma das mais importantes foi ter a humildade de saber onde se meter (para quais provas estou minimamente preparado) e, estando nelas, saber quando é a hora de parar. E isso é uma decisão difícil de se tomar, pois sempre achamos que dá para ir mais um pouco, e é aí que mora o perigo. Abraços.

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  2. Rodolfo nascimento

    Cunhei a seguinte frase depois de concluir uma BR135;
    “A ultra faz muito mal para o corpo e muito bem para a alma.”
    Rodolfo shosholoza.

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