Carlos Dias, maior ultramaratonista brasileiro, ensina como correr uma ultra

Paulo Vieira

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CARLOS DIAS E HEROI FUNG. Dois nomes, o segundo razoavelmente extravagante, que podem dizer pouco para grande contingente de leitores deste pasquim.

Mas Carlos, nascido no ABC paulista, é o maior ultramaratonista brasileiro. A precisão, nos primórdios, o fez correr para o trabalho; o gosto pela coisa o fez evoluir de uma prova de 10K na Vila Prudente, sua primeira, nos anos 1990, para 42 maratonas em 42 dias.

Também já correu do Oiapoque ao Chuí, os extremos norte e sul do Brasil, algo como 9 mil quilômetros. Em 100 dias.

Já enfrentou os desertos de Gobi (Mongólia) e da Jordânia, as altitudes do Nepal e as pirambeiras dos Andes – onde cruzou 250K com ganho de altitude de 4 mil metros.

Encarou a umidade da Amazônia e o gelo da Antártida.

Fung é seu treinador. Um sujeito razoavelmente entrado em anos, físico aposentado que passou a vida na Sabesp, a estatal das águas paulista, para agora, com mais tempo, orientar gratuitamente pupilos que querem correr mais.

A primeira coisa que Fung diz a seus orientandos é “como você vai estar, como seu corpo vai estar daqui a dez anos?”

E pega a mão do interlocutor e bate nela com seu indicador para mostrar simbolicamente o trabalho incessante do coração durante uma corrida.

Fung não quer ninguém ultrapassando limites bastante conservadores de intensidade. Essa seria, grosso modo, sua receita para correr, correr, correr e nunca mais parar de correr. Como faz Carlos.

Fung é adepto da meditação transcendental, e foi em busca de alguma receita de preparação mental que propus tomar um café com ele no Centro de São Paulo uma sexta-feira dessas.

E ele levou ao encontro seu mais célebre pupilo. Luxo só.

Mas perguntar para qualquer um deles qual a receita mental para se manter 70, 90, 120K numa corrida é inócuo. Ou, melhor dizendo: é inócuo se você espera uma resposta liminar.

Como nos satoris do zen-budismo, a resposta está em cada um de nós, me explicaram.

“Cada um tem uma fórmula”, disseram em uníssono.

Carlos já pensou no filho recém-nascido, na mãe recém-desaparecida e também já passou dezenas e dezenas de quilômetros sem pensar em nada muito substancioso, como acontece comumente a cada um de nós durante uma corrida.

Experimente anotar tudo o que você pensa durante uma longa corrida: você verá que não há tanta coisa assim a anotar.

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Mencionei minhas fórmulas: a estratégia Madadayo, a tábua de estações de trem da CPTM.

Nada disso é necessário, me disseram.

(Voltando depois para casa me senti como um professor de cursinho ensinando uma velha marcha carnavalesca com letra adaptada para que os vestibulandos decorem a composição do DNA).

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Um dos grandes erros, talvez o maior erro, de um repórter – e isso pode paradoxalmente aumentar com a experiência – é esperar determinadas respostas do entrevistado.

Pior: contar com essas respostas.

É o que se chama de “não saber ouvir”. Em algum momento da conversa com Carlos e Fung me vi repetindo uma entrevista que fiz nos anos 1990 com o gigante negão Itamar Assumpção, esse compositor-mor-mor-mor-mor de um Brasil que já vai ficando para trás.

Em dado momento de uma entrevista peripatética, pois ele tinha de entrar em alguns ônibus (que ele não pegava, pois usava metrô), me disse que teria sido apedrejado (literalmente) numa caminhada pelo Centro.

Eu, idiota da objetividade, para usar a expressão de Nelson Rodrigues, pedi o lead. Mas lead não havia; era descabido pedi-lo.

Que importava saber quando, como, onde, por quê?

Algo fugia completamente a meu entendimento naquele relato.

Sim, há uma fórmula a seguir para se manter numa longa corrida, como me disseram esses dois grandes professores.

O problema (e talvez a beleza) disso é que ela se manifesta diferentemente para cada um dos corredores.

O velho ponto de Don Juan.

Seguiremos tentando.

 

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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