Abilio Diniz e a maratona Pão de Açúcar, por Sérgio Xavier

Paulo Vieira

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SÉRGIO XAVIER volta a este espaço para falar de um empresário que, aos 80 anos, não pretende largar o osso. Osso que ele teve de suar muito para conseguir.

Abilio Diniz, que recentemente teve uma biografia autorizada publicada pela jornalista Cristiane Correa (a mesma do best seller Sonho Grande), acaba de lançar seu segundo livro de, por assim dizer, memórias físico-jurídicas. Novos Caminhos, Novas Escolhas veio a lume pela Editora Objetiva.

A pessoa física, especialmente a pessoa corredora de Diniz, já havia integrado o terceiro livro de Xavier, Vidas Corridas, e é aí que entramos. Vidas conta histórias de Diniz e outros homens e mulheres de sucesso no mundo dos negócios e no cascalho.

Mas deixemos que SX fale de uma vez de Diniz.

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JÁ ESTAMOS NA 24ª EDIÇÃO DA MARATONA Pão de Açúcar, essa que é a maior prova de rua do Brasil. Decidi escrever sobre Abilio Diniz no meu livro Vidas Corridas principalmente em função da prova.

Centenas de milhares de pessoas (e não exagero na ordem de grandeza) começaram a correr por causa dela. Muitos desses iriam morrer com as coronárias entupidas assistindo ao jogo do Corinthians ou do Flamengo no sofá de casa. E mudaram de vida porque um dia foram convencidas a “completar uma equipe”.

No livro eu descrevo o momento em que a prova nasceu. Abilio Diniz teve dois parceiros fundamentais nesse processo, seu filho João Paulo e o executivo Luis Fernando Vianna.
Roubei um trechinho do meu próprio livro aqui…

“…na época, estava desembarcando na empresa o executivo Luis Fernando Viana. Carioca e corredor, apoiava totalmente o PA [Pão de Açúcar] Clube. Só via uma fragilidade no projeto: ele era todo voltado ao público interno. Será que o Pão de Açúcar não deveria botar aquilo para fora? Assim, em um fim de tarde, Viana e João Paulo resolveram quebrar a cabeça para desenvolver a ideia. O carioca se lembrou de ter lido algo sobre a Ekiden, uma prova que nasceu dentro de uma universidade e se tornou tradição no Japão. Lá, todos os anos, milhares de atletas percorrem em equipe os 217 quilômetros entre Tóquio e Hakone. 

Os times têm dez integrantes e cada um faz o equivalente a uma meia-maratona. Pois não era mais ou menos daquilo que o Pão de Açúcar precisava? E seria também uma oportunidade para resolver outra questão, porque corrida era um esporte individual, mas também poderia ser coletivo e, por isso, mais contagiante. Assim nascia a Maratona de Revezamento Pão de Açúcar, um evento que transformaria para sempre a corrida de rua no Brasil.

SÉRGIO XAVIER E SEU VIDAS CORRIDAS

SOMOS CORREDORES NEURÓTICOS

MARCOS PAULO REIS E A PODER

UMA PLANILHA PARA COMEÇAR A CORRER, POR WANDERLEI OLIVEIRA

JQC NA MARATONA PÃO DE AÇÚCAR

Essa prova já nasceu inclusiva. Era uma maratona com 42 quilômetros, sim, mas que podia ser paga em suaves prestações de oito vezes de 5 quilômetros – no país do crediário, só podia dar certo. Assim, montavam-se equipes de oito, quatro ou dois integrantes para percorrer a distância de uma maratona ao longo da manhã de um domingo, geralmente em setembro. E era quase irrecusável o convite dos colegas de seção: “Já temos sete corredores, só falta você. Se não aguentar correndo os 5 quilômetros, pode caminhar, o que importa é a diversão…”.

Desse modo, o Pão de Açúcar deu à luz uma nova geração de corredores. Principalmente porque, ao participar daquele domingo festivo, era difícil não querer mais. 

O kit da prova era generoso: camiseta tecnológica, barras de cereal, isotônico e, o principal, uma enorme medalha na chegada. Depois disso, milhares de pessoas que estrearam com arrastados cinco quilômetros na Maratona de Revezamento Pão de Açúcar se tornaram corredores habituais e até “maratonistas individuais” anos depois.

Mas o desenho da prova exigiu horas e horas de debates. Como fazer a troca de corredores? Com um bastão, como nas provas de atletismo de pista? E para beber água, não seria incômodo? Pois a ideia de uma munhequeira e, mais tarde, de uma braçadeira que automaticamente se moldava e fechava no pulso resolveu a questão.

Sol a pino, asfalto queimando/Charlie Turdera
A maratona Pão de Açúcar em São Paulo, 2016/foto: Charlie Turdera

Assim, a maratona começou por São Paulo e aos poucos ganhou o Brasil. Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, novos corredores foram gerados Brasil afora. O evento logo passou a ser aberto, então qualquer um poderia se inscrever.

Grupos de amigos de clubes e de outras empresas formavam equipes, mas era a turma do PA Clube que ia em massa. E a equipe número 1 tinha sempre Abilio, João Paulo e mais dois integrantes da diretoria. E quanto aos outros quatro? Bem, aí [o treinador] Wanderlei Oliveira fazia uma peneira entre os funcionários mais rápidos de todo o grupo e os selecionava.  

Nessas horas, Abilio sempre gostava da integração com todos, mas, se pudesse chegar entre os primeiros, tanto melhor. João Paulo lembra que havia um objetivo ainda mais específico, que era vencer o time dos seguranças da família. Afinal, para proteger a família, os seguranças tinham que correr ao menos no mesmo ritmo que os protegidos.

Para trabalhar com Abílio e João Paulo, era fundamental estar preparado para treinos quase diários. Mas a maratona era a oportunidade de os seguranças tirarem uma onda com os patrões, então Abilio e João Paulo faziam força para não dar esse gostinho aos companheiros de treino no dia da Maratona Pão de Açúcar…”

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Paulo Vieira

Influenciado pelo velho “Guia completo da corrida”, do finado James Fixx, Paulo Vieira fez da calça jeans bermuda e começou a correr pela avenida Sumaré, em São Paulo, na adolescência, nos anos 1980. Mais tarde, após longo interregno, voltou com os quatro pés nos anos 2000, e agora coleciona maratonas – 6, com viés de alta – e distâncias menos auspiciosas. Prefere o cascalho de cada dia às provas de domingo e faz da corrida plataforma para voos metafísicos, muitos dos quais você encontra nestas páginas. Evoé.

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